sábado, 18 de dezembro de 2010

IV Domingo do Advento (Ano A)



Roteiro Homilético – IV Domingo do Advento (Ano A)

RITOS INICIAIS

Is 45, 8

Antífona de entrada: Desça o orvalho do alto dos Céus e as nuvens chovam o Justo. Abra-se a terra e germine o Salvador.

Não se diz o Glória.

Introdução ao espírito da Celebração

O Natal está à porta. Dentro de algumas horas vamos ouvir a Boa Nova trazida pelo anjo do Senhor: anuncio-vos uma grande alegria que será para todo o povo – nasceu o Salvador (Lc 2,10). Intensifica-se a preparação para essa festa, preparação feita de conversão, de fidelidade ao Senhor.

Preparar o Natal é purificar as nossas alianças, é romper com os falsos Deuses que nos solicitam, é abrirmo-nos ao Deus de Jesus Cristo que nos trouxe a Salvação.

A quem estamos nós ligados? Onde está o nosso tesouro e portanto o nosso coração?

Oração colecta: Infundi, Senhor, a vossa graça em nossas almas, para que nós, que pela anunciação do Anjo conhecemos a encarnação de Cristo vosso Filho, pela sua paixão e morte na cruz alcancemos a glória da ressurreição. Por Nosso Senhor…

Liturgia da Palavra

Primeira Leitura

Monição: A Virgem conceberá e dará à luz um filho. Esta profecia realizou-se em Maria. A Igreja sempre professou a Virgindade real e perpétua de Maria. O nascimento de Cristo não diminuiu, antes consagrou a Virgindade da sua Mãe (LG 57).

Isaías 7, 10-14

Naqueles dias, 10o Senhor mandou ao rei Acaz a seguinte mensagem: 11«Pede um sinal ao Senhor teu Deus, quer nas profundezas do abismo, quer lá em cima nas alturas». 12Acaz respondeu: «Não pedirei, não porei o Senhor à prova». Então Isaías disse: 13«Escutai, casa de David: Não vos basta que andeis a molestar os homens para quererdes também molestar o meu Deus? 14Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: a virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será Emanuel».

O contexto histórico deste oráculo isaiano é o da conjura dos reis de Israel e de Damasco para destronarem Acaz, o rei de Judá.

10-12 Como prova de que o rei Acaz não virá a ser destronado e substituído pelo filho de Tabel, estranho à linhagem davídica, o profeta Isaías propõe ao rei que peça um sinal divino, o mais extraordinário que seja (cf. v. 11). O rei, com hipócrita religiosidade, nega-se a pedir esse sinal, porque não acredita em sinais, em coisas sobrenaturais. Foi por esta ocasião – o que não quer dizer exactamente no mesmo momento – que o Profeta, dirigindo-se à linhagem (casa) de David, anunciou que o Senhor dará um sinal verdadeiramente extraordinário e que o trono de David se consolidará eternamente (cf. 1 Sam 7, 16).

14 Esse «sinal» é «a virgem que concebe». Muito se tem discutido e escrito sobre este sinal. Uma coisa é certa, é que o crente não pode prescindir de algum sentido messiânico (directo ou indirecto) desta célebre passagem isaiana. De facto, a própria exegese bíblica mostra que estamos no chamado «Livro do Imanuel» (Is 7 – 12), uma secção de carácter vincadamente messiânico por apontar para um descendente de David em quem se concentram as promessas da salvação de Deus, o Imanuel (o Deus connosco); embora, em primeiro plano, possa ser visado o próprio filho do rei Acaz, Ezequias, ele é considerado uma figura ou tipo do Messias. A tradução grega dos LXX (inspirada por Deus?) utilizou um termo específico para designar a virgindade desta mãe, chamando-a parthénos, quando o termo hebraico original não designa mais que a sua idade juvenil: ‘almáh. A célebre tradução grega em que se apoiavam os primeiros apologistas cristãos para demonstrarem aos judeus que Jesus é o Messias prometido, veio a ser rejeitada pelos judeus, que a substituíram por outras versões (ou antes adaptações gregas: Áquila, Símaco e Teodocião) e o dia festivo para comemorar a tradução dos LXX passou a ser um dia de luto. A interpretação mais tradicional defende o sentido literal (não se contentando com o sentido chamado típico ou pleno, suficientes para se garantir o sentido messiânico da passagem) e faz finca-pé em que Deus tinha oferecido pelo Profeta um sinal prodigioso, e eis que o dá; ora esse sinal só é prodigioso se a concepção e o nascimento do Menino acontece sem destruir a virgindade da Mãe; aliás é ela a pôr o nome ao filho, coisa que pertence sempre ao pai (que aqui não aparece). O próprio nome do filho insinua a sua divindade, «Deus connosco»: é a mesma personagem extraordinária anunciado em Is 9, 5-6: «Deus forte, príncipe da paz…». Mt 1, 23 (o Evangelho de hoje) e toda a tradição cristã e o próprio magistério da Igreja levam a ver nesta passagem uma referência «ao parto virginal da Mãe de Deus e ao verdadeiro Emanuel, Cristo Senhor» (Pio VI). Não é, porém, agora aqui o lugar para entrar em mais discussões exegéticas de pormenor.

Salmo Responsorial Salmo 23 (24), 1-2.3-4ab.5-6 (R. 7c e 10b)

Monição: Neste salmo celebramos já o Messias cujo nascimento vamos comemorar. Para celebrar o Natal precisamos de ter um coração puro e mãos inocentes.

Refrão: Venha o Senhor: é Ele o rei glorioso.

Ou: O Senhor virá: Ele é o rei da glória.

Do Senhor é a terra e o que nela existe,

o mundo e quantos nele habitam.

Ele a fundou sobre os mares

e a consolidou sobre as águas.

Quem poderá subir à montanha do Senhor?

Quem habitará no seu santuário?

O que tem as mãos inocentes e o coração puro,

que não invocou o seu nome em vão nem jurou falso.

Este será abençoado pelo Senhor

e recompensado por Deus, seu Salvador.

Esta é a geração dos que O procuram,

que procuram a face do Deus de Jacob.

Segunda Leitura

Monição: S. Paulo, ao apresentar Jesus Cristo e a sua obra, sintetiza o plano salvador de Deus. Afirma que Jesus, Filho de Deus, tinha sido «prometido pelos profetas nas sagradas Escrituras».

Romanos 1, 1-7

1Paulo, servo de Jesus Cristo, apóstolo por chamamento divino, escolhido para o Evangelho 2que Deus tinha de antemão prometido pelos profetas nas Sagradas Escrituras,3acerca de seu Filho, nascido da descendência de David, segundo a carne, 4mas, pelo Espírito que santifica, constituído Filho de Deus em todo o seu poder pela sua ressurreição de entre os mortos: Ele é Jesus Cristo, Nosso Senhor. 5Por Ele recebemos a graça e a missão de apóstolo, a fim de levarmos todos os gentios a obedecerem à fé, para honra do seu nome, 6dos quais fazeis parte também vós, chamados por Jesus Cristo. 7A todos os que habitam em Roma, amados por Deus e chamados a serem santos, a graça e a paz de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo.

A leitura corresponde à saudação inicial da Carta aos Romanos, em que Paulo se apresenta aos cristãos residentes em Roma a quem pretende visitar (cf. vv. 10-15). Apresenta-se na sua qualidade de «Apóstolo por chamamento divino, escolhido» por Deus para pregar aos gentios o Evangelho de Jesus Cristo, deixando claro desde o início (v. 4) a natureza humana do Filho de Deus, «da descendência de David segundo a carne (katà sárka)» e a sua natureza divina, «constituído Filho de Deus em todo o seu poder pela sua ressurreição». Convém ter presente que não foi a ressurreição que O tornou Filho de Deus, mas foi esta que lhe garantiu o pleno exercício de «todo o seu poder» que lhe compete como Filho de Deus e que manifestou o que Ele é, Filho de Deus «segundo o Espírito (katà pneûma) de santificação», isto é, «quanto ao seu ser animado pelo Espírito da santidade divina», uma forma de aludir à sua condição divina (e não ao Espírito Santo, a Terceira Pessoa Trinitária), como fica claro pela contraposição: «segundo a carne» (katà sárka) – «segundo o Espírito» (katà pneûma). Ainda que se possa ver nestas formulações da fé o reflexo de uma cristologia primitiva, dita «baixa», e ainda não suficientemente desenvolvida, mais existencial do que essencial, a verdade é que os títulos com que Jesus Cristo é aqui designado – «Filho» e «Senhor» – são suficientemente expressivos da fé na natureza divina de Jesus possuída antes da ressurreição (cf. Rom 8, 3; Gal 4, 4-5; Filp 2, 6; Col 1, 15).

Aclamação ao Evangelho

Mt 1, 23

Monição: O Evangelho conduz-nos de novo a Maria, ás circunstâncias que ela viveu nos dias que precederam o nascimento do Senhor. Saudemos Aquele que ela trouxe no seu seio.

Aleluia

A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado Emanuel, Deus connosco.

Evangelho

São Mateus 1, 18-24

18O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. 19Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. 20Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um Filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». 22Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor anunciara por meio do Profeta, que diz: 23«A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado ‘Emanuel’, que quer dizer ‘Deus connosco’». 24Quando despertou do sono, José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu sua esposa.

S. Mateus centra o seu relato do nascimento de Jesus na figura de S. José (S. Lucas na de Maria), com uma clara intencionalidade teológica de apresentar Jesus como o Messias, anunciado como descendente de David. Isto é posto em evidência logo de início: «Genealogia de Jesus Cristo (=Messias), Filho de David» (v. 1). Como a linha genealógica passava pelo marido, é a de José que é apresentada. Os elos são seleccionados para que apareçam três séries de 14 nomes, obedecendo a uma técnica rabínica, chamada gematriáh, ou recurso ao valor alfabético dos números; assim o número 14, reforçado pela sua tripla repetição – «catorze gerações» – (no v. 17),sugere o nome de David, que em hebraico se escreve com três consoantes (em hebraico não se escrevem as vogais) que dão o número catorze ([D=4]+[V=6]+[D=4]=14). A concepção virginal antes de ser explicada e justificada pelo cumprimento das Escrituras (vv. 18-25), é logo anunciada na genealogia, que precede imediatamente a leitura de hoje, pois para todos os seus elos se diz «gerou», quando para o último elo não se diz que «gerou», mas: «José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus» (v. 16, à letra «da qual foi gerado – entenda-se, por Deus – Jesus»).

18 «Antes de terem vivido em comum»: Maria e José já tinham celebrado os esponsais (erusim), que tinham valor jurídico de um matrimónio, mas ainda não tinham feito as bodas solenes (nissuim ou liqquhim), em que o noivo trazia festivamente a noiva para sua casa, o que costumava ser cerca de um ano depois.

«Encontrava-se grávida por virtude do Espírito Santo»: isto conta-se em pormenor no Evangelho de S. Lucas (1, 26-38), lido na festa da Imaculada Conceição (ver comentário então feito). Ao dizer-se «por virtude do Espírito Santo», não se quer dizer que o Espírito Santo desempenhou o papel de pai, pois Ele é puro espírito. Também isto nada tem que ver com os relatos mitológicos dos semideuses, filhos dum deus e duma mulher. Além do mais, é evidente o carácter semítico e o substrato judaico e vétero-testamentário das narrativas da infância de Jesus em Mateus e Lucas; ora, nas línguas semíticas a palavra «espírito» (rúah) não é masculina, mas sim feminina. Isto chegava para fazer afastar toda a suspeita de dependência do relato relativamente aos mitos pagãos. Por outro lado, na Sagrada Escritura, Deus nunca intervém na geração à maneira humana, pois é espiritual e transcendente: Deus não gera criaturas, Deus cria-as. As narrativas de Mateus e Lucas têm tal originalidade que excluem qualquer dependência dos mitos.

19 «Mas José, seu esposo…». Partindo do facto real e indiscutível da concepção virginal de Jesus, aqui apresentamos uma das muitas explicações dadas para o que se passou. A verdade é que não dispomos da crónica dos factos, pois a intenção do Evangelista era primordialmente teológica, embora sem inventar histórias, pois em face dos dados das suas fontes nem sequer disso precisava. Do texto parece depreender-se que Maria nada tinha revelado a José do mistério que nela se passava. José vem a saber da gravidez de Maria por si mesmo ou pelas felicitações do paraninfo (o «amigo do esposo»), e o que devia ser para José uma grande alegria tornou-se o mais cruel tormento. Em circunstâncias idênticas, qualquer outro homem teria actuado drasticamente, denunciando a noiva ao tribunal como adúltera. Mas José era um santo, «justo», por isso, não condenava ninguém sem ter as provas evidentes da culpa. E aqui não as tinha e, conhecendo a santidade singular de Maria, não admite a mais leve suspeita, mas pressente que está perante o sobrenatural, já sentido por Isabel… (ou não teria tido alguma iluminação divina acerca da profecia de Isaías 7, 14). Então só lhe restava deixar Maria, para não se intrometer num mistério em que julga não lhe competir ter parte alguma. É assim que «resolveu repudiá-la em segredo», evitando, assim, «difamá-la» (colocá-la numa situação infamante) ou simplesmente «tornar público» («deigmatísai») o mistério messiânico. Mas podemos perguntar: porque não interrogava antes Maria para ser ela esclarecer o assunto? É que pedir uma explicação já seria mostrar dúvida, ofendendo Maria; a sua delicadeza extrema levá-lo-ia a não a humilhar ou deixar embaraçada. E porque razão é que Maria não falou, se José tinha direito de saber do sucedido? Mas como é que Maria podia falar de coisas tão colossalmente extraordinárias e inauditas?! Como podia provar a José a Anunciação do Anjo? Maria calava, sofria e punha nas mãos de Deus a sua honra e as angústias por que José iria passar por sua causa; e Deus, que tinha revelado já a Isabel o mistério da sua concepção, podia igualmente vir a revelá-lo a José. De tudo isto fica para nós o exemplo de Maria e de José: não admitir suspeitas temerárias e confiar sempre em Deus.

20 «Não temas receber Maria, tua esposa». O Anjo não diz: «não desconfies», mas: «não temas». Segundo a explicação anterior, José deveria andar amedrontado com algo de divino e misterioso que pressentia: julga-se indigno de Maria e decide não se imiscuir num mistério que o transcende. Como explica S. Bernardo, S. José «foi tomado dum assombro sagrado perante a novidade de tão grande milagre, perante a proximidade de tão grande mistério, que a quis deixar ocultamente… José tinha-se, por indigno…». Segundo alguns exegetas modernos (Zerwick), o texto sagrado poderia mesmo traduzir-se: «embora o que nela foi gerado seja do Espírito Santo, Ela dar(-te-)á à luz um filho ao qual porás o nome de Jesus, exercendo assim para Ele a missão de pai». Assim, o Anjo não só elucida José, como também lhe diz que ele tem uma missão a cumprir no mistério da Incarnação, a missão e a dignidade de pai do Salvador. Comenta Santo Agostinho: «A José não só se lhe deve o nome de pai, mas este é-lhe devido mais do que a qualquer outro. Como era pai? Tanto mais profundamente pai, quanto mais casta foi a sua paternidade… O Senhor não nasceu do germe de José. Mas à piedade e amor de José nasceu um filho da Virgem Maria, que era Filho de Deus».

23 «Será chamado Emanuel». No original hebraico de Isaías 7, 14, temos o verbo no singular (forma aramaica para a 3ª pessoa do singular feminino: weqara’t referido a virgem, que é a que põe o nome = «e ela chamará»). Mateus, porém, usa o plural, que não aparece na tradução litúrgica, (kai kalésousin: «e chamarão»), um plural de generalização, a fim de que o texto possa ser aplicado a S. José, para pôr em evidência a missão de S. José, como pai «legal» de Jesus (notar que a célebre profecia isaiana, ao dizer que seria a virgem a pôr o nome ao seu filho até parece prestar-se a significar que este não nasceria de germe paterno). Mateus, em face do papel providencial desempenhado por S. José, não receia adaptar o texto à realidade maravilhosa muito mais rica do que a letra do anúncio profético. Contudo, esta técnica do Evangelista para «actualizar» um texto antigo (chamada deraxe) não é arbitrária, pois baseia-se na regra hermenêutica rabínica chamada al-tiqrey («não leias»), a qual consiste em não ler um texto consonântico com umas vogais, mas com outras (o hebraico escrevia-se sem vogais). Neste caso, trata-se de «não ler» as consoantes do verbo (wqrt) com as vogais que correspondem à forma feminina (tanto da 3ª pessoa do singular na forma aramaica, como da 2ª pessoa do singular da tradução dos LXX:weqara’t «e tu chamarás»), mas de ler com as vogais que correspondem à 2ª pessoa do singular masculino (weqara’ta «e tu chamarás» – em hebraico há diferentes formas masculina e feminina para as 2ª e 3ª pessoas dos verbos). Como pensa Alexandre Díez Macho, «com este deraxe oculto, mas real, Mateus confirma as palavras do anjo do Senhor no v. 21: «e (tu, José) o chamarás».

Eis, a propósito, o maravilhoso comentário de S. João Crisóstomo, apresentando Deus a falar a José: «Não penses que, por ser a concepção de Cristo obra do Espírito Santo, tu és alheio ao serviço desta divina economia; porque, se é certo que não tens nenhuma parte na geração e a Virgem permanece intacta, não obstante, tudo o que pertence ao ofício de pai, sem atentar contra a dignidade da virgindade, tudo to entrego a ti, o pôr o nome ao filho. (…) Tu lhe farás as vezes de pai, por isso, começando pela imposição do nome, Eu te uno intimamente com Aquele que vai nascer» (Homil. in Mt, 4).

25 «E não a tinha conhecido…». S. Mateus pretende realçar que Jesus nasceu sem prévias relações conjugais, mas por um milagre de Deus. Quanto à posterior virgindade o Evangelista não só não a nega, como até a parece insinuar no original grego, ao usar o imperfeito de duração («não a conhecia») em vez do chamado aoristo complexivo como seria de esperar, caso quisesse abranger apenas o tempo até ao parto (Zerwick). Uma tradução mais à letra seria «até que Ela deu à luz», em vez de: «quando Ela deu à luz». De qualquer modo, esta afirmação não significa que depois já não se verificasse o que até este momento acontecera, como é o caso de Jo 9, 18.

Sugestões para a homilia

Isaías revela o mistério da Incarnação

Domingo de Maria

Preparar o Belém no nosso coração

Isaías revela o mistério da Incarnação

São deveras notáveis as palavras do profeta Isaías a Acab quando lhe foi falar da parte de Deus. Para o tirar da sua incredibilidade diz-lhe: Pede o sinal que quiseres. Este recusa-se a pedir tal, alegando o pretexto de não tentar a Deus, para não se ver obrigado a deixar a sua impiedade. Isaías lança-lhe à cara a sua cobardia: Assim mostras não ter fé, não saber que Deus é todo poderoso e pode livrar-te do perigo.

Também nós adoptamos ás vezes essa atitude tão absurda para um crente: Tituviar, temer, oscilar. Atitudes destas não se compreendem em quem se sabe filho de Deus Pai que nos ama infinitamente. Os sinais visíveis da sua misericórdia e o milagre da nossa conversão não nos faltarão sempre que, arrependidos, ouvimos a sua palavra e, contritos, observamos os seus mandamentos.

É curioso que foi precisamente este o momento escolhido por Deus para revelar a Incarnação, mistério central da nossa fé. Infelizmente vivemos num tempo caracterizado pela rejeição da Incarnação. É como se Jesus já não encontrasse lugar num mundo cada vez mais secularizado, lamenta o Papa. Cristo é relegado para um passado remoto ou para um céu longínquo.

Quando se nega Cristo desaparece o sentido e o valor da vida; a esperança dá lugar ao desespero e a alegria à depressão. Não se ama correctamente o corpo nem a sexualidade humana, nem sequer se valoriza a natureza, a própria criação.

É preciso pôr Deus no seu lugar, repetia há anos Pai Américo, no Coliseu do Porto, cheio de espectadores que assistiam à festa dos seus gaiatos, apontando o remédio para que a justiça e a paz seja uma presença viva no seio da humanidade. Hoje repetiria o mesmo repto, mas em tom maior do que então.

Domingo de Maria

O Advento é tempo de espera do salvador–que os profetas anunciaram e a Virgem Mãe esperou com inefável amor (2.º prefácio do Advento).

O Evangelho que acabámos de ouvir refere a concepção de Maria, Mãe de Jesus, aceitação por José e o nascimento do Salvador. Desde toda a eternidade, Deus escolheu, para ser a Mãe do seu Filho uma filha de Israel, uma jovem judia de Nazaré, Virgem que era noiva de um homem da casa de David (CIC n.º 488).

Todo o Advento está referido a Maria. No seu seio o Espírito Santo formou a carne do Redentor, tornando assim possível que o Verbo nela encarnasse e assim pudesse realizar a salvação mediante a sua morte e ressurreição. Só Maria conhece o segredo da Vida que se esconde no seu seio. Como tantas mães, ela esperou com alegria o momento de dar à luz o filho que Deus Pai havia formado no seu ventre. Só Maria é a mulher que traz nas suas entranhas o Salvador.

O centro da história é Cristo como vamos professar no próximo dia de Natal. Mas quando se quer contemplar o Sol, a Aurora é o presságio gozoso do desfrute da luz, o Salvador. Por isso hoje, prestes a dar à luz o Messias esperado, Maria e Belém enchem a nossa contemplação. O Natal aproxima-se.

Preparar Belém no nosso coração

Deus connosco. Quem não se sente como que mais perto de Deus nestes dias? Quem não se encontra mais aligeirado de preocupações, com uma verdadeira paz? Quem não experimenta uma grande alegria?

Temos que nos dispor a acolher o Salvador, limpar o coração. Estes dias dão-nos a oportunidade de nos aproximarmos do sacramento da alegria, a confissão.

Havemos de partilhar a nossa alegria com os mais pobres, os doentes, os abandonados. Estamos alegres porque temos Jesus no Sacrário, porque Deus está ao nosso alcance na oração, porque temos por mãe, a Mãe do Senhor. Vamos repartir com os outros qualquer coisa do que temos. Quando mais não seja, mais amizade, mais perdão, mais alegria. Assim, sim, será Natal.

Fala o Santo Padre

«O Natal é ocasião para saborear a alegria de nos doarmos aos irmãos.»

1. A festa do Natal, talvez a mais querida à tradição popular, é extremamente rica de símbolos, ligados às diferentes culturas. Entre todos, o mais importante é, sem dúvida, o presépio.

2. Ao lado do presépio, como nesta Praça de São Pedro, encontramos a tradicional «árvore de Natal». Também esta é uma antiga tradição, que exalta o valor da vida porque na estação invernal, a árvore sempre verde se torna um sinal da vida que não perece. Geralmente, na árvore adornada e aos pés da mesma são colocados os dons de Natal. Assim, o símbolo torna-se eloquente também em sentido tipicamente cristão: evoca à mente a «árvore da vida» (cf. Gn 2, 9), figura de Cristo, supremo dom de Deus à humanidade.

3. Por conseguinte, a mensagem da árvore de Natal é que a vida permanece «sempre verde», se se torna dom: não tanto de coisas materiais, mas de si mesmo: na amizade e no carinho sincero, na ajuda fraterna e no perdão, no tempo compartilhado e na escuta recíproca.

Que Maria nos ajude a viver o Natal como uma ocasião para saborear a alegria de nos doarmos a nós mesmos aos irmãos, especialmente aos mais necessitados.

João Paulo II, Angelus, 19 de Dezembro de 2004

Liturgia Eucarística

Oração sobre as oblatas: Aceitai, Senhor, os dons que trazemos ao vosso altar e santificai-os com o mesmo Espírito que, pelo poder da sua graça, fecundou o seio da Virgem Santa Maria. Por Nosso Senhor….

Prefácio do Advento II: p. 455 [588-700]

Santo: «Da Missa de festa», Az. Oliveira, NRMS 50-51

Monição da Comunhão Pelo sim de Maria Deus fez-Se nossa luz, nossa vida, nosso alimento. Peçamos-lhe que reparta connosco as suas disposições para menos indignadamente comungarmos a Jesus que está ansioso de descer ao nosso coração, o autêntico presépio que Ele procura.

Antífona da comunhão: A Virgem conceberá e dará à luz um filho. O seu nome será Emanuel, Deus-connosco.

Oração depois da comunhão: Tendo recebido neste sacramento o penhor da redenção eterna, nós Vos pedimos, Senhor: quanto mais se aproxima a festa da nossa salvação, tanto mais cresça em nós o fervor para celebrarmos dignamente o mistério do Natal do vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Ritos Finais

Monição final: Maria é nosso perfeito modelo da expectação do Salvador de espírito humilde e puro. É a arca viva da Aliança que traz Jesus. A Salvação chega até nós pela carne de Maria, pela fé de Maria.

Homilia Ferial

4ª SEMANA

2ª feira, 24-XII:A identificação com Cristo.

2 Sam 7, 1-5. 8-12 / Lc 1, 67-79

Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e libertou o seu povo e nos fez surgir poderosa salvação na família do seu servo David.

O profeta Natã comunica a David que a sua casa e a sua realeza permanecerão para sempre (cf. Leit). E o mesmo faz Zacarias, recordando o juramento feito por Deus a Abraão (cf. Ev).

Deus tinha prometido a Abraão uma descendência, em que o próprio Filho assumiria a imagem e restauraria a semelhança com o Pai (cf. CIC, 705). Os sacramentos, a vida de oração e a leitura do Evangelho vão imprimindo em nós, cada vez mais intensamente a imagem de Cristo.

Celebração e Homilia: Armando Barreto Marques

Nota Exegética: Geraldo Morujão

Homilia Ferial: Nuno Romão

Sugestão Musical: Duarte Nuno Rocha

Fonte: Celebração Litúrgica

III Domingo do Advento (Ano A)



Roteiro Homilético – III Domingo do Advento (Ano A)

RITOS INICIAIS

Filip 4, 4.5

Antífona de entrada: Alegrai-vos sempre no Senhor. Exultai de alegria: o Senhor está perto.

Não se diz o Glória.

Introdução ao espírito da Celebração

«Alegrai-vos, sempre, no Senhor! Repito: alegrai-vos: o Senhor está a chegar». Com estas palavras, tiradas da Carta de S. Paulo aos Filipenses, a Igreja Santa, no cântico de entrada deste 3º Domingo do Advento, faz-nos um apelo veemente à alegria, virtude unida intimamente à esperança…O Senhor está a chegar e, com Ele, nos vêm todos os bens. Por isso se chama este Domingo, na tradição litúrgica, o Domingo da Alegria.

Estejamos atentos à Palavra do Senhor. Ele nos aponta, mais uma vez, onde estão as verdadeiras alegrias.

Oração colecta: Deus de infinita bondade, que vedes o vosso povo esperar fielmente o Natal do Senhor, fazei-nos chegar às solenidades da nossa salvação e celebrá-las com renovada alegria. Por Nosso Senhor…

Liturgia da Palavra

Primeira Leitura

Monição: O Profeta Isaías refere-nos, num texto muito belo, a alegria dos tempos messiânicos: com a vinda de Jesus, tudo exulta com brados de alegria.

Isaías 35, 1-6a.10

1Alegrem-se o deserto e o descampado, rejubile e floresça a terra árida, 2cubra-se de flores como o narciso, exulte com brados de alegria. Ser-lhe-á dada a glória do Líbano, o esplendor do Carmelo e do Sáron. Verão a glória do Senhor, o esplendor do nosso Deus. 3Fortalecei as mãos fatigadas e robustecei os joelhos vacilantes. 4Dizei aos corações perturbados: «Tende coragem, não temais: Aí está o vosso Deus, vem para fazer justiça e dar a recompensa. Ele próprio vem salvar-vos». 5Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. 6aEntão o coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria. 10Voltarão os que o Senhor libertar, hão-de chegar a Sião com brados de alegria, com eterna felicidade a iluminar-lhes o rosto. Reinarão o prazer e o contentamento e acabarão a dor e os gemidos.

Este texto não se limita a descrever poeticamente a alegria e felicidade dos judeus retornados do exílio, uma alegria a que a própria natureza se associa (vv. 1-2). A passagem tem um colorido messiânico e escatológico: os vv. 5-6 cumprem-se à letra com a vinda de Cristo (cf. Evangelho de hoje, Mt 11, 5); «o prazer e o contentamento» perpétuos e sem mistura de «dor e gemidos» (v. 10) tiveram o seu começo com Jesus Cristo, mas mais num sentido espiritual; a sua consumação e plenitude está reservada para o fim dos tempos, na escatologia (cf. Apoc 7, 16-17; 21, 2-4).

Salmo Responsorial Salmo 145 (146), 7.8-9a.9bc-10 (R. cf. Is 35, 4)

Monição: Toda a nossa esperança deve estar sempre no Senhor Jesus; só Ele nos pode valer. Debaixo dos Céus não foi dado outro nome aos homens pelo qual eles possam ser salvos.

Refrão: Vinde, Senhor, e salvai-nos!

Ou: Aleluia!


O Senhor faz justiça aos oprimidos,

dá pão aos que têm fome

e a liberdade aos cativos.

O Senhor ilumina os olhos dos cegos,

o Senhor levanta os abatidos,

o Senhor ama os justos.

O Senhor protege os peregrinos,

ampara o órfão e a viúva

e entrava o caminho aos pecadores.

O Senhor reina eternamente.

o teu Deus, ó Sião,

é rei por todas as gerações.

Segunda Leitura

Monição: Nesta leitura o Apóstolo São Tiago dá-nos o exemplo do agricultor, que espera pacientemente o precioso fruto da terra. Sejamos pacientes. O nosso Deus não falha no cumprimento das suas promessas.

Tiago 5, 7-10

Irmãos: 7Esperai com paciência a vinda do Senhor. Vede como o agricultor espera pacientemente o precioso fruto da terra, aguardando a chuva temporã e a tardia. 8Sede pacientes, vós também, e fortalecei os vossos corações, porque a vinda do Senhor está próxima. 9Não vos queixeis uns dos outros, a fim de não serdes julgados. Eis que o Juiz está à porta. 10Irmãos, tomai como modelos de sofrimento e de paciência os profetas, que falaram em nome do Senhor.

Os temas da leitura são a paciência e a vinda do Senhor. A paciência, virtude eminentemente cristã em que a carta insiste (cf. 1, 2-4.12), não significa uma passividade em face das injustiças, mas perseverança na fidelidade ao Senhor, na certeza de que Ele virá como Juiz remunerador; não é uma indiferença estóica perante a dor, a contrariedade e a opressão, mas é sofrer com Cristo, unindo os sofrimentos próprios à sua Paixão redentora.

7 «Como o agricultor espera pacientemente…»: temos aqui uma bela comparação tirada da vida agrícola; com efeito, na Palestina, onde chove muito pouco, todo o agricultor anseia pelas chuvas que costumam vir sobretudo em duas épocas (cf. Jr 5,24) as chuvas temporãs (Outubro-Novembro: as chamadas yoreh ou moreh), que preparam a terra para as sementeiras, e as tardias (Março-Abril: em hebraico malqox), que garantem uma boa colheita.

9 «Eis que o Juiz está à porta»: o Senhor cuja «vinda está próxima» (v. 8), é como se estivesse já em frente da nossa porta, pronto a bater e a entrar. Esta vinda do Justo Juiz no final dos tempos, antecipa-se para cada um à hora da morte. Essa vinda será terrível para os que confiaram em si mesmos e nas suas riquezas, tantas vezes iniquamente adquiridas (cf. Tg 5, 1-6), mas será libertadora para os bons cristãos. Talvez haja aqui uma referência à eminente destruição de Jerusalém, com a vinda do Juiz divino (cf. Mc 13, 29) que libertará os cristãos palestinos da opressão de maus senhores judeus.

Aclamação ao Evangelho

Is 61, 1 (cf. Lc 4, 18)

Monição: No Evangelho de hoje, que vamos aclamar e escutar de pé, S. João Baptista é elogiado por Cristo como o maior entre os filhos de mulher. Ele veio como precursor, para preparar os caminhos do Senhor.

Aleluia

O Espírito do Senhor está sobre mim: enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres.

Evangelho

São Mateus 11, 2-11

Naquele tempo, 2João Baptista ouviu falar, na prisão, das obras de Cristo e mandou-Lhe dizer pelos discípulos: 3«És Tu Aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?» 4Jesus respondeu-lhes: «Ide contar a João o que vedes e ouvis: 5os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a boa nova é anunciada aos pobres. 6E bem-aventurado aquele que não encontrar em Mim motivo de escândalo». 7Quando os mensageiros partiram, Jesus começou a falar de João às multidões: «Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento? 8Então que fostes ver? Um homem vestido com roupas delicadas? Mas aqueles que usam roupas delicadas encontram-se nos palácios dos reis. 9Que fostes ver então? Um profeta? Sim, Eu vo-lo digo, e mais que profeta. 10É dele que está escrito: ‘Vou enviar à tua frente o meu mensageiro, para te preparar o caminho’. 11Em verdade vos digo: Entre os filhos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista. Mas o menor no reino dos Céus é maior do que ele».

A pergunta que faz João, agrilhoado nas masmorras da fortaleza de Maqueronte situado nos rochedos da margem oriental do Mar Morto, parece ser uma pergunta destinada a encaminhar para Jesus alguns discípulos mais apegados ao Baptista e que ainda não aceitavam Jesus como Messias. É pois uma pergunta pedagógica. Dificilmente se pode entender como uma dúvida de fé do próprio Baptista, em face do que se conta em Mt 3, 16 e João 1, 29-34.

5 A resposta de Jesus apoia-se especialmente no cumprimento das profecias de Isaías (Is 35, 5, cf. 1ª leitura de hoje, e 60, 1).

6 Jesus torna-se um empecilho, «um motivo de escândalo», um tropeço, para aqueles que se aferravam à ideia de um Messias glorioso, um rei terreno poderoso. A imagem que Jesus deixa de Si nos que O vêem é a da humildade despretensiosa: Jesus oculta o que é na realidade.

11 Esta superioridade e inferioridade não se refere à santidade pessoal, mas à dignidade: João tem um ministério superior ao dos próprios profetas, pois lhe cabe apresentar directa e pessoalmente a Cristo; mas, uma vez que a Nova Lei é de uma ordem superior, nela o último em dignidade supera o mais digno da Lei Antiga. E João, enquanto preparador e anunciador da vinda do Messias, pertence à Antiga Lei.

Sugestões para a homilia

1. A virtude da esperança.

2. A alegria cristã.

3. O testemunho cristão.

1. A virtude da esperança.

Somos conscientes de que temos paixões e debilidades; o nosso coração perturba-se tantas vezes, a dor e os gemidos, as preocupações e os desânimos fazem-nos esmorecer e a nossa esperança como que se esvai. Precisamos de ouvir palavras de ânimo e de coragem como as que hoje nos transmite a Palavra de Deus: «Tende coragem, não temais: Aí está o vosso Deus…Ele próprio vem salvar-nos»( 1ª leitura); «Esperai com paciência a vinda do Senhor»(2ª leitura).

Jesus, ao longo da sua vida pública, aviva e revigora continuamente a esperança dos seus discípulos.

A nossa esperança de ser santos e de ser eficazes nutre-se da Palavra de Deus, que queremos meditar e levar à prática.

S. Paulo, na carta aos Romanos, recomenda-nos vivamente: «O Deus da esperança vos encha plenamente de alegria e paz na vossa fé, a fim de que superabunde em vós a esperança, pela virtude do Espírito Santo» (15, 13).

Cristo é a nossa esperança. «Nada nos poderá separar do amor de Deus que está em Cristo Nosso Senhor» (Rom. 8, 38 ss.)

2. A alegria cristã.

A alegria cristã é fruto da esperança, da fé e da caridade. Deus quer-nos contentes. S. Paulo, nas suas cartas, não se cansa de repetir-nos: «Alegrai-vos, sempre, no Senhor. Repito: alegrai-vos» (Cânt. de entrada).

A proximidade do Senhor, saber que Ele está perto, que está a chegar Aquele que nos ama, Aquele a quem amamos, não pode deixar de inundar-nos com uma grande alegria. A segurança do amor divino, a sua presença no meio de nós não pode deixar de despertar em nós uma enorme confiança, um gozo e uma enorme satisfação.

«Se Deus está por nós, quem contra nós?»(1 Cor. 8, 31).

A alegria é um dos meios que Deus nos dá para fazer o bem.

«Um filho de Deus, um cristão que vive de fé, pode sofrer e chorar, pode estar cansado e esgotado, pode ter motivos para ter dor: para estar triste, nunca» (S. Josemaria).

Levantemos os olhos para Maria. Ela é «causa da nossa alegria»- não só pelo seu exemplo, mas porque por Ela nos veio Cristo, o Príncipe da Paz, a Fonte da alegria e da felicidade para todos os homens. Ele é verdadeiramente a «Boa Nova para um mundo novo» (lema do Ano Pastoral). Assim cantaram os Anjos na Noite de Natal.

3. O testemunho cristão.

Somos cristãos e levamos no coração a fé e o amor de Deus como o maior tesouro que nos podia ser entregue pela graça do nosso Baptismo. Este tesouro não nos foi dado só para nosso benefício. Quando a amizade é verdadeira, surge a abertura e a confidência: nada é alheio aos verdadeiros amigos e vem a partilha, a comunicação, a inter-ajuda. A amizade faz-se apostólica, transforma-se em alegria e a alegria torna-se contagiosa. Os cristãos temos connosco o segredo da verdadeira alegria.

Levados pelo Espírito Santo, os cristãos dos primeiros tempos e os cristãos de todas as épocas, também os dos tempos actuais, procuram levar por toda aparte o fogo do amor de Cristo que levam no coração (Filip 4, 22; 2 Tim 4, 19 ss). Os Actos dos Apóstolos, as Epístolas de S. Paulo, de S. Pedro, de S. João trazem-nos exemplos maravilhosos da intensa actividade apostólica desse nossos irmãos dos primeiros tempos. O «fogo» do amor de Deus tem sido sempre em todas as épocas um «fogo devorador» (DT 4, 24).

Nas nossas mãos, ainda que sejamos pouca coisa, o Senhor depositou este tesouro incalculável que é a nossa fé e a nossa esperança e a nossa caridade, para que as transmitamos às novas gerações; entregou-nos estes talentos para que os negociemos, para que os façamos frutificar.

Que Maria Santíssima, Rainha dos Apóstolos, Causa da nossa alegria, nos consiga de Deus uma maior vibração apostólica, para darmos testemunho de Jesus Cristo e da sua Boa Nova de Salvação.

Liturgia Eucarística

Oração sobre as oblatas: Fazei, Senhor, que a oblação deste sacrifício se renove sempre na vossa Igreja, de modo que a celebração do mistério por Vós instituído realize em nós plenamente a obra da salvação. Por Nosso Senhor…

Prefácio do Advento I: p. 453 [586-698] ou II p. 455 [588-700]

Santo: A. Cartageno, Suplemento ao CT

Monição da Comunhão: A graça santificante diviniza o cristão e converte-o em filho de Deus e templo da Santíssima Trindade. Receber Jesus Cristo na Comunhão faz-nos crescer nesta vida divina: guiados pelo Espírito Santo, chegaremos à plena união com Cristo, que terá a sua consumação no Céu.

Recebamos o Senhor com a mesma pureza, piedade e devoção com que O receberam a sua Santíssima Mãe, S. José, seu esposo e S. João Baptista. Que Jesus aumente em nós a alegria e a paz.

Antífona da comunhão: Dizei aos desanimados: Tende coragem e não temais. Eis o nosso Deus que vem salvar-nos.

Oração depois da comunhão: Concedei, Senhor, pela vossa bondade, que este divino sacramento nos livre do pecado e nos prepare para as festas que se aproximam. Por Nosso Senhor…

Ritos Finais

Monição final: Alimentados com o pão celestial e com a Palavra de Deus, sejamos em toda a parte imagens vivas de Cristo. A Eucaristia, como mistério de amor, enche-nos de alegria pela sua presença no meio de nós. Sejamos testemunhas desta alegria junto de todos os nossos familiares e amigos.

Homilias Feriais

3ª SEMANA

2ª feira, 17-XII: A genealogia de Jesus Cristo.

Gen 49, 2. 8-10 / Mt 1, 1-17

(Jacob): O ceptro não há-de fugir a Judá, até que venha aquele que lhe tem direito e a quem os povos hão-de obedecer.

Jacob reúne os seus filhos e anuncia-lhes a vinda do Messias (cf. Leit). E é precisamente da sua descendência que foi gerado, muitos séculos depois, «José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus» (Ev).

O nome de Jesus quer dizer «Deus salva». E está presente nas orações: as que acabam com a fórmula ‘por nosso Senhor Jesus Cristo’; na Ave-Maria, que nos recorda o ‘bendito fruto do vosso ventre’ (cf. CIC, 435). Que este nome esteja igualmente presente nas nossas acções e orações.

3ª feira,18-XII: O nome de José.

Jer 23, 5-8 / Mt 1, 18-24

Dias virão em que farei surgir para David um rebento justo. Será um verdadeiro rei e agirá com sabedoria.

O profeta Jeremias anuncia a vinda do Salvador, como descendente messiânico de David (cf. Leit). E José, descendente de David, recebe a mensagem do Anjo, que lhe comunica o nascimento de Jesus (cf. Ev).

O nome de José significa em hebreu ‘Deus acrescentará’, isto é, aquele que cumpre a vontade de Deus, receberá abundantes graças. Assim actuou José: «fez como lhe ordenara o Anjo do Senhor» (Ev). O Senhor dar-nos-á igualmente a suas graças, se nos esforçarmos por cumprir a sua vontade.

4ª feira, 19-XII:A Anunciação a Zacarias.

Jz 13, 2-7. 24-25 / Lc 1, 5-25

(O Anjo): Não temas Zacarias, porque a tua súplica foi atendida. Tua esposa Isabel dar-te-á um filho, ao qual porás o nome de João.

Uma mulher estéril, esposa de Manoá, recebe a visita do Anjo do Senhor, que lhe anuncia o nascimento de um filho, Sansão (cf. Leit). O mesmo aconteceu a Isabel, esposa de Zacarias, que deu à luz João Baptista (cf. Ev).

João Baptista vai ser enviado a fim de preparar para o Senhor um povo bem disposto (cf. Ev). Procuremos melhorar as nossas disposições para recebermos bem o Messias: com alegria, vigilantes na oração e celebrando os seus louvores (cf. Prefácio II do Advento).

5ª feira, 20-XII: Advento com Maria (I).

Is 7, 10-14 / Lc 1, 26-38

Há-de a Virgem conceber e dar à luz um filho, a quem porá o nome de Emanuel.

Esta profecia de Isaías vai realizar-se na Virgem Maria (cf. Ev)

Com esta Anunciação do Anjo, começa o Advento de Nossa Senhora. Na sua companhia queremos viver ainda melhor o que nos resta de tempo do Advento. Podemos imitar a sua disponibilidade para as obras de Deus: «Eis a serva do Senhor»; a sua obediência na fé: «faça-se em mim segundo a vossa palavra», para podermos cumprir mais plenamente a vontade de Deus; o seu sim, que contribuiu para a salvação da humanidade, vencendo o não de Eva.

6ª feira, 21-XII: Advento com Maria (II).

Cant 2, 8-14 / Lc 1, 39-45

Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre.

Temos mais um episódio do modo como Nossa Senhora viveu o Advento.

Cheia de alegria (cf. Leit e Ev), porque leva no seu ventre o Verbo encarnado, Nossa Senhora dirige-se para a casa de sua prima Isabel, que a recebe com grandes louvores: «Feliz daquela que acreditou». Não deixemos de louvar a nossa Mãe saboreando muito bem as palavras da Ave-Maria. Procuremos também viver este Advento com o mesmo espírito de serviço e entrega aos outros como Ela viveu, procurando criar à nossa volta um ambiente de sã alegria.

Sábado, 22-XII: Advento com Maria (III).

1 Sam 1, 24-28 / Lc 1, 46-56

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador.

Ana levou o seu filho Samuel para o dedicar ao serviço do Senhor no Templo e o seu coração exulta de alegria (cf. Ev e S. Resp). Também Nossa Senhora, transportando o Filho de Deus no seu ventre, eleva a Deus um cântico de louvor, o Magnificat (cf. Ev).

O Magnificat é uma manifestação da espiritualidade de Maria: louvor, exaltação, gratidão, humildade. Com a aproximação do Natal cantemos muitos louvores a Deus, agradeçamos-lhe o envio do seu Filho e a salvação que nos trouxe.

Celebração e Homilia: Alfredo Melo

Nota Exegética: Geraldo Morujão

Homilias Feriais: Nuno Romão

Sugestão Musical: Duarte Nuno Rocha

Fonte: Celebração Litúrgica

II Domingo do Advento (Ano A)



Roteiro Homilético – II Domingo do Advento (Ano A)

RITOS INICIAIS

Is 30, 19.30

Antífona de entrada: Povo de Sião: eis o Senhor que vem salvar os homens. O Senhor fará ouvir a sua voz majestosa na alegria dos vossos corações.

Não se diz o Glória.

Introdução ao espírito da Celebração

No Evangelho desta Eucaristia, São João Baptista faz este apelo: «Arrepende-vos», isto é, reconhecei que sois pecadores, reconhecei que tendes pecados e, com a ajuda de Jesus, procurai obter o perdão dos pecados. Jesus veio ao mundo para tirar o pecado do mundo. Sendo assim, o verdadeiro arrependimento levar-nos-á a uma confissão bem feita. Nesta quadra do Advento, sobretudo a partir do dia 10 de Dezembro, os sacerdotes estarão muitas horas no confessionário. Natal sem confissão e comunhão Eucarística não é verdadeiro Natal.

Oração colecta: Concedei, Deus omnipotente e misericordioso, que os cuidados deste mundo não sejam obstáculo para caminharmos generosamente ao encontro de Cristo, mas que a sabedoria do alto nos leve a participar no esplendor da sua glória. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Liturgia da Palavra

Primeira Leitura

Monição: Isaías, neste texto Messiânico, apresenta Jesus como: «Aquele que julgará os infelizes com justiça e com sentenças rectas os humildes do povo».

Isaías 11, 1-10

Naquele dia, 1sairá um ramo do tronco de Jessé e um rebento brotará das suas raízes. 2Sobre ele repousará o espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de inteligência, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de conhecimento e de temor de Deus. 3Animado assim do temor de Deus, não julgará segundo as aparências, nem decidirá pelo que ouvir dizer. 4Julgará os infelizes com justiça e com sentenças rectas os humildes do povo. Com o chicote da sua palavra atingirá o violento e com o sopro dos seus lábios exterminará o ímpio. 5A justiça será a faixa dos seus rins e a lealdade a cintura dos seus flancos. 6O lobo viverá com o cordeiro e a pantera dormirá com o cabrito; o bezerro e o leãozinho andarão juntos e um menino os poderá conduzir. 7A vitela e a ursa pastarão juntamente, suas crias dormirão lado a lado; e o leão comerá feno como o boi. 8A criança de leite brincará junto ao ninho da cobra e o menino meterá a mão na toca da víbora. 9Não mais praticarão o mal nem a destruição em todo o meu santo monte: o conhecimento do Senhor encherá o país, como as águas enchem o leito do mar. 10Nesse dia, a raiz de Jessé surgirá como bandeira dos povos; as nações virão procurá-la e a sua morada será gloriosa.

O texto da leitura é um dos mais belos poemas do messianismo davídico, e uma das mais notáveis profecias messiânicas de todo o A.T.; faz parte do chamado «Livro do Emanuel», sete capítulos de Isaías de singular densidade messiânica (Is 6 – 12).

1 «Jessé» (Yixái, na Bíblia hebraica) é o pai de David, o «tronco» que deu origem a um «rebento», um ramo, que é o Messias, Jesus Cristo.

2 «Sobre ele repousará o Espírito do Senhor» (cf. Mt 3, 16; Lc 4, 18). Neste texto fundamenta-se o número septenário da Teologia dos dons do Espírito Santo. Podia alguém estranhar que na tradução não se fale do «espírito de piedade», como na tradução dos LXX e na Vulgata. Mas a letra do original hebraico (sem variantes) não regista a «piedade», tendo sido seguido pela Neovulgata e pela nossa tradução litúrgica. No entanto o suposto acrescento (para se obter o número 7, número de plenitude) da tradução grega dos LXX e da latina de S. Jerónimo não é arbitrário; com efeito, há no original hebraico uma repetição do «temor de Deus», nos vv. 2 e 3, e o termo hebraico «yiráh» tanto pode significar «reverência» como «temor», e daí a tradução no v. 2 por «piedade» e no v. 3 por «temor». Como o espírito do temor de Yahwéh de que aqui se fala é sem dúvida o do temor filial, pode considerar-se legítimo o desdobramento ou explicitação feita pelo tradutor grego dos LXX (que alguns antigos e modernos consideram inspirado), no que foi seguido por S. Jerónimo, na Vulgata.

5 A figura da «faixa» e da «cintura» é um hebraísmo com que se designa a actividade, uma vez que estas se costumam usar para cingir a roupa a fim de se trabalhar mais expeditamente. A expressão corresponde pois a dizer que o Messias «actuará com justiça e lealdade».

6-9 A paz que trará o Messias é descrita deste modo paradisíaco e idílico tão belo, diríamos que ideal e utópico. No entanto, a paz que Cristo traz aos corações e à própria Humanidade supera o que as imagens fazem supor: é «um rio de paz» (cf. Is 66, 12).

10 «A raiz de Jessé», isto é, o Messias, descendente do rei David, filho de Jessé, unirá todos os povos sob um único estandarte, daí o chamar-lhe a «bandeira dos povos» (gentios), que serão atraídos («virão procurá-la») a Cristo na sua Igreja.

Salmo Responsorial Salmo 71 (72), 2.7-8.12-13.17 (R. cf. 7)

Monição: Este Salmo, também Messiânico, como que sintetiza o texto de Isaías, da Eucaristia de hoje, em certos aspectos.

Refrão: Nos dias do Senhor nascerá a justiça e a paz para sempre.

Ó Deus, dai ao rei o poder de julgar
e a vossa justiça ao filho do rei.
Ele governará o vosso povo com justiça
e os vossos pobres com equidade.

Florescerá a justiça nos seus dias
e uma grande paz até ao fim dos tempos.
Ele dominará de um ao outro mar,
do grande rio até aos confins da terra.

Socorrerá o pobre que pede auxílio
e o miserável que não tem amparo.
Terá compaixão dos fracos e dos pobres
e defenderá a vida dos oprimidos.

O seu nome será eternamente bendito
e durará tanto como a luz do sol;
nele serão abençoadas todas as nações,
todos os povos da terra o hão-de bendizer.

Segunda Leitura

Monição: Cristo vem salvar judeus e gentios. Devemos acolher os outros como Jesus nos acolheu, para glória de Deus.

Romanos 15, 4-9

Irmãos: 4Tudo o que foi escrito no passado foi escrito para nossa instrução, a fim de que, pela paciência e consolação que vêm das Escrituras, tenhamos esperança. 5O Deus da paciência e da consolação vos conceda que alimenteis os mesmos sentimentos uns para com os outros, segundo Cristo Jesus, 6para que, numa só alma e com uma só voz, glorifiqueis a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. 7Acolhei-vos, portanto, uns aos outros, como Cristo vos acolheu, para glória de Deus. 8Pois Eu vos digo que Cristo Se fez servidor dos judeus, para mostrar a fidelidade de Deus e confirmar as promessas feitas aos nossos antepassados. 9Por sua vez, os gentios dão glória a Deus pela sua misericórdia, como está escrito: «Por isso eu Vos bendirei entre as nações e cantarei a glória do vosso nome».

A leitura é um pequeno trecho da 2ª parte, a parte moral, final da Epístola (Rom 12 – 16), que termina apresentando o exemplo de Cristo, feito «servidor» de todos, judeus e gentios; para com os judeus mostrando a fidelidade divina (v. 8) e para com os gentios mostrando a sua misericórdia (v. 9).

4 S. Paulo acentua o valor e utilidade da Sagrada Escritura, como em 2 Tim 3, 16. A sua leitura e meditação produz frutos muito concretos: «a paciência» e a «consolação», que levam a manter firme a «esperança» em Deus.

Aclamação ao Evangelho

Lc 3, 4.6

Monição: Façamos tudo, quanto de nós depende, para que toda a criatura veja a salvação que Deus oferece.

Aleluia

Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas e toda a criatura verá a salvação de Deus.

Evangelho

São Mateus 3, 1-12

1Naqueles dias, apareceu João Baptista a pregar no deserto da Judeia, 2dizendo: «Arrependei-vos, porque está perto o reino dos Céus». 3Foi dele que o profeta Isaías falou, ao dizer: «Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’». 4João tinha uma veste tecida com pêlos de camelo e uma cintura de cabedal à volta dos rins. O seu alimento eram gafanhotos e mel silvestre. 5Acorria a ele gente de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a região do Jordão; 6e eram baptizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados. 7Ao ver muitos fariseus e saduceus que vinham ao seu baptismo, disse-lhes: «Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir? 8Praticai acções que se conformem ao arrependimento que manifestais. 9Não penseis que basta dizer: ‘Abraão é o nosso pai’, porque eu vos digo: Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão. 10O machado já está posto à raiz das árvores. Por isso, toda a árvore que não dá fruto será cortada e lançada ao fogo. 11Eu baptizo-vos com água, para vos levar ao arrependimento. Mas Aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu e não sou digno de levar as suas sandálias. Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo. 12Tem a pá na sua mão: há-de limpar a eira e recolher o trigo no celeiro. Mas a palha, queimá-la-á num fogo que não se apaga».

Os quatro Evangelhos coincidem em que a pregação de Jesus é precedida de uma preparação do povo com a pregação de João Baptista, como o último dos profetas que anuncia imediatamente a vinda de Jesus. A referência ao local onde pregava – «no deserto» – não parece ser uma simples indicação topográfica, mas parece ir mais longe, com a alusão ao lugar onde teve início o antigo povo de Deus, com a aliança do Sinai. De qualquer modo, o deserto da Judeia não significa uma zona literalmente desértica, mas uma região árida e de pouca vegetação. Não é descabido pensar que João, de família sacerdotal, tivesse aderido ao movimento renovador dos essénios.

2 «Arrependei-vos». O texto original também se podia traduzir por convertei-vos, isto é, mudai o coração, mudai o pensar (metanoeîte); não se trata de um mero mudar de rumo na vida, mas duma atitude interior de sincero arrependimento, a atitude de quem se reconhece pecador e humildemente vai rectificar, mesmo à custa de sacrifício (penitência); daí a tradução da Vulgata e da Neovulgata (poenitentiam agite).

«Reino dos Céus», expressão habitual em S. Mateus, equivalente a Reino de Deus, mas evitando pronunciar o nome inefável de Deus. «Está perto o reino…», isto é,uma especialíssima intervenção salvadora de Deus, para estabelecer o seu soberano domínio misericordioso, que libertará o homem da escravidão do pecado, do demónio e da morte. Este reino, ou reinado de Deus, manifesta-se na palavra, obra e sobretudo na própria Pessoa de Cristo, que é quem o vem realizar no grau mais elevado e mais puro, sem as excrescências materialistas do nacionalismo teocrático (como pensavam os judeus contemporâneos do Senhor). Mas o reino de Deus só terá a sua perfeita consumação quando Jesus Cristo vier pela segunda vez no fim dos tempos (cf. 1 Cor 15, 24). Neste tempo intermédio, entre as duas vindas do Senhor, a Igreja é já o reino de Deus, enquanto que é a comunidade salvífica, presença sacramental de Cristo a congregar e conduzir os homens à salvação eterna (cf. Vaticano II, LG 5).

3 «Uma voz daquele que clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor…’». Segundo o texto de Isaías, aquele que clama é o Profeta, um arauto de Deus (uma figura do Baptista), a incitar a abrir o caminho do regresso do exílio, um caminho de Deus, isto é, um caminho que Deus proporciona ao seu povo que Ele quer reconduzir e salvar. Este regresso é concebido como um novo Êxodo, daí a referência ao deserto, noção muito rica: lugar privilegiado de encontro com Deus, de aliança, de purificação, de desinstalação, de preparação para a entrada na terra prometida. Por isso era também no deserto que os essénios de Qumrã e de outros lugares se preparavam naqueles tempos para a vinda do Messias; no deserto pregava João e para o deserto se retirou Jesus no início da sua vida pública.

4-5 Nunca se diz que João vestia uma pele de camelo, como às vezes se pensa, mas que se vestia com «pêlos (ou lã) de camelo». O mel silvestre não parece ser mel de abelhas selvagens, mas algum insípido melaço segregado por plantas daquela zona, talvez da tamargueira, abundante junto a Jericó, nas margens do Jordão, onde João baptizava. A pregação de João, o seu estilo de vida e até a própria apresentação à maneira do profeta Elias (cf. 2 Reis 1, 8) eram de molde a produzir tal impacto que arrastava as multidões, como também atesta um autor judeu da época (Flávio José, Antiquitates, 18, 5,2).

11 O baptismo de João não tinha a força de produzir na alma a graça da justificação e só valia enquanto punha em evidência as boas disposições do sujeito e as confirmava, ajudando as pessoas a disporem-se para a iminente chegada do Messias. O Baptismo de Jesus é «no Espírito Santo e em fogo»: tem a virtude de produzir a graça pela acção de Cristo no sujeito e não pelos méritos de quem o recebe ou administra. O fogo parece ser antes uma imagem da eficácia purificadora e renovadora do Espírito Santo na alma do baptizado. Autores há que pensam que talvez o Baptista se movesse num plano veterotestamentário, não designando o Baptismo de água, mas uma grande efusão do Espírito Santo para os que se arrependessem e um fogo condenatório (v. 12) para os impenitentes. Isto não parece tão provável, nem é tão óbvio. Note-se que nem o baptismo de João, nem o de Jesus aparecem como algo estranho ou chocante: inseriam-se nos costumes diários dos Judeus que praticavam muitas abluções rituais, nomeadamente o baptismo dos prosélitos, que da gentilidade abraçavam o judaísmo.

Sugestões para a homilia

1. O texto do Profeta Isaías, com carácter messiânico, é extraordinariamente rico. Vejamos:

a) Sobre Jesus repousará o Espírito do Senhor;

b) Não julgará segundo as aparências; nem decidirá pelo que ouvir dizer;

c) Julgará os infelizes com justiça e com sentenças rectas os humildes do povo;

d) Com o sopro dos seus lábios exterminará o ímpio;

e) Não mais praticarão o mal nem a destruição;

f) O conhecimento do Senhor encherá o país, como as águas enchem o leito do mar;

g) Jesus surgirá como bandeira dos povos; as nações virão procurá-la e a sua morada será gloriosa.

Assim Isaías descreve os Bens Messiânicos.

Deles participamos neste mundo, de modo mais ou menos perfeito. Só na eternidade, com a visão de Deus, seremos felizes para sempre. Isto nos diz o Salmista em poucas palavras: «No dia Senhor nasce a justiça e a paz para sempre».

2. Sem esquecer que Jesus Se fez servidor dos judeus, para mostrar a fidelidade de Deus e confirmar as promessas feitas aos seus antepassados»; «Por sua vez, os gentios dão glória a Deus pela Sua misericórdia, como está escrito».

Destes versículos da Epístola de São Paulo aos Romanos conclui-se que Cristo veio ao mundo para a todos salvar.

Mas, desta mesma Epístola, não esqueçamos a seguinte recomendação: «Acolhei-vos, portanto, uns aos outros, como Cristo vos acolheu, para glória de Deus». Como este pormenor é importante em nossos dias! Constantemente se fala de acolhimento!

Claro que as pessoas, na sua maioria, quando falam de acolhimento é para sublinhar a forma como não acolhidas. Ai dos funcionários públicos, e dos empregados de qualquer género de serviços que não recebem os clientes com um sorriso, com toda a delicadeza e sem perda de tempo!

Quem é exigente com os outros também o será consigo, quando se trata de acolher?

Considero importantíssimo que vejamos o acolhimento a nível de cada Família, Maridos, Esposas, Pais, Filhos, Avós, Netos, como os acolheis? Há muitas Famílias em crise, porque se falha no acolhimento.

A Esposa não é bem acolhida porque chega a casa e ela ainda está deserta. O Marido não é bem acolhido porque a esposa espera um beijo dele e o Marido espera o beijo dela.

Mas ninguém quis ser o primeiro. E não houve beijo. Com os Filhos vai acontecer a mesma coisa.

De novo interrogo: Como se escolhem, em Família, na hora da refeição? Há tempo para diálogo ou já só vêem televisão?

É preciso acolher como Cristo nos acolhe: amando primeiro, desculpando, ouvindo, aconselhando, sabendo perdoar, dando parabéns, etc.

Este tema parece banal mas não é.

Quem não sabe acolher, corre o perigo de quase tudo deitar a perder.

3. Quanto ao Santo Evangelho, nada mais acrescentaria ao que se disse na Introdução ao Espírito da Celebração.

Mas será fácil convencer os cristãos, de hoje, de que têm pecados?

Não será ainda mais difícil conseguirem tempo e coragem para se confessarem?

Devemos rezar muito para que os cristãos vejam no Sacramento da Penitência uma bênção. Confessar-se é a forma mais simples, e eficaz, de nos libertarmos de muitos pesadelos!

Ao dar a Comunhão, no dia de Natal, o Sacerdote e os Ministros Extraordinários da Eucaristia, devem proferir as palavras, «O Corpo de Cristo», de tal forma, que se veja em cada pessoa, que comunga, um Presépio vivo. Presépio vivo? Sim! Cristo vai contigo, após recebê-Lo, e Nossa Senhora, São José e os Anjos fazem-te guarda de honra.

O Deus Menino está em teu coração. Haverá presépio mais vivo?

Como Nossa Senhora ficará contente a ver tantos filhos seus a «Comungar o Deus que se fez Menino».

Liturgia Eucarística

Oração sobre as oblatas: Olhai benignamente, Senhor, para as nossas humildes ofertas e orações e, como diante de Vós não temos méritos, ajudai-nos com a vossa misericórdia. Por Nosso Senhor…

Prefácio do Advento I: p. 453 [586-698] ou I/A p. 454

Santo: Santo I, H. Faria, NRMS 103-104

Monição da Comunhão: Através da Comunhão frequente, se veja, em todos os ambientes, que vale a pena fazê-lo, porque nessas pessoas se vê o Cristo vivo.

Antífona da comunhão: Levanta-te, Jerusalém, sobe às alturas e vê a alegria que vem do teu Deus.

Oração depois da comunhão: Saciados com o alimento espiritual, humildemente Vos pedimos, Senhor, que, pela participação neste sacramento, nos ensineis a apreciar com sabedoria os bens da terra e a amar os bens do Céu. Por Nosso Senhor…

Ritos Finais

Monição final: Ide em Paz e o Senhor vos acompanhe. Não vos esqueçais de falar aos vossos amigos, a muitas pessoas, do Natal que se aproxima e da forma como dever ser vivido pelos cristãos.

Homilias Feriais

2ª SEMANA

2ª feira, 10-XII: A cura das nossas ‘paralisias’.

Is 35, 1-10 / Lc 5, 17-26

Então os olhos dos cegos hão-de abrir-se, e descerrar-se os ouvidos dos surdos. Então o coxo saltará de alegria.

Conforme é anunciado pelo profeta, a vinda do Messias será acompanhada por acontecimentos extraordinários (cf. Leit). De entre eles, destacam-se aqui o perdão dos pecados e a cura de um paralítico (cf. Ev).

Deixemos que o Messias cure as nossas paralisias e as dos nossos amigos: o afastamento de Deus, dos sacramentos e da vida de oração, a pouca ajuda na vida familiar, a preguiça no trabalho, etc. E que perdoe igualmente os nossos pecados, aproximando-nos do sacramento da Penitência.

3ª feira, 11-XII: Os cuidados do Bom Pastor.

Is 40, 1-11 / Mc 18,121-14

Olhai que o Senhor Deus vai chegar com poder… É como o pastor que apascenta o seu rebanho.

De acordo com as palavras do profeta, o Messias será o bom Pastor, que cuida de todas as ovelhas do seu rebanho (cf. Leit). E Jesus diz que exercitará essa tarefa, procurando que todas as ovelhas se salvem (cf. Ev).

Preparemos a vinda do Senhor, através de pequenas conversões: aquilo em que falhámos deve ser compensado; os altos e baixos devem transformar-se de modo a que o nosso dia seja mais equilibrado (cf. Leit). Renovemos igualmente os actos de contrição, ao longo do dia, sempre que alguma coisa não correr bem, pois é um sinal de conversão.

4ª feira, 12-XII: Ajuda aos cansados.

Is 40, 25-31 / Mt 11, 28-30

Os que esperam no Senhor, recuperam as forças… crescem sem se fatigarem, caminham sem se cansarem.

De acordo com esta profecia, o Messias haveria de ajudar todos os cansados (cf. Leit). É o mesmo convite dirigido por Jesus: «vinde a mim todos os que vos afadigais» (Ev.).

Aquilo que realmente pesa são os nossos pecados, são os nossos problemas que queremos resolver sem a ajuda de Deus. O Senhor é quem quer tornar leve o homem: dá força a quem anda exausto; dá esperança aos desanimados; ajuda os que se queixam da dureza da vida (cf. Leit). Ajudemos nós também aqueles que andam sobrecarregados pelos seus problemas pessoais ou familiares.

5ª feira, 13-XII: S. Luzia: Fonte de fortaleza e fertilidade.

Is 41, 13-20 / Mt 11, 11-15

Irás bater e triturar os montes, reduzir as colinas a palha.

O Messias vem a ser uma fonte de fortaleza, para ultrapassarmos os obstáculos, e uma fonte de fertilidade (cf. Leit). Jesus louva o seu Precursor, João Baptista, como exemplo desta virtude (cf. Ev).

Precisamos da virtude da fortaleza para vencermos as dificuldades do dia a dia; para superarmos aquilo que nos custa e cumprirmos os nossos deveres; para não desistirmos de fazer aquilo que é árido ou não apetece fazer (cf. Leit). Santa Luzia sofreu o martírio, graças a uma fortaleza emprestada, concedida por Deus a quem o põe à frente de tudo.

6ª feira, 14-XII: S. João da Cruz: Felicidade e palavra de Deus.

Is 48, 17-19 / Mt 11, 16-19

Oh! Se tivesses atendido às minhas ordens, o teu bem-estar seria como um rio, e a tua prosperidade, como as ondas do mar.

Isaías anuncia que a nossa felicidade está ligada ao acolhimento da palavra de Deus (cf. Leit). Infelizmente nem Jesus nem João Baptista foram bem acolhidos no seu tempo (cf. Ev).

Ante a expectativa da vinda do Messias aceitar cada vez melhor os seus ensinamentos, (cf. Leit). Pelo contrário, não imitemos o comportamento dos pagãos nem sigamos os seus conselhos (cf. S. Resp). S. João da Cruz ensinou-nos que o caminho da felicidade passa pelo amor à cruz

Sábado, 15-XII: O profeta Elias, outro Precursor do Messias.

Sir 48, 1-4. 9-11 / Mt 17, 10-13

Como tu brilhaste, Elias, pelos teus prodígios!… Foste preparado em ordem ao futuro.

Em ambas leituras é recordada a figura de profeta Elias. Também ele realizou grandes prodígios, graças ao poder divino: ressuscitou o filho da viúva de Sarepta, fez descer o fogo de Deus sobre o holocausto do Monte Carmelo. O seu nome significa: O Senhor é o meu Deus!

A palavra de Elias queimava como um facho ardente (Leit). De modo semelhante as palavras de Jesus queimavam os discípulos de Emaús, enquanto lhes falava pelo caminho. Animemo-nos a pegar fogo à terra com a palavra e Deus., dirigida aos nossos amigos e familiares.

Celebração e Homilia: Fernando Silva
Nota Exegética: Geraldo Morujão
Homilias Feriais: Nuno Romão
Sugestão Musical: Duarte Nuno Rocha

Fonte: Celebração Litúrgica