sábado, 18 de dezembro de 2010

I Domingo do Advento (Ano A)

Roteiro Homilético – I Domingo do Advento (Ano A)

RITOS INICIAIS

Salmo 24, 1-3

Antífona de entrada: Para Vós, Senhor, elevo a minha alma. Meu Deus, em Vós confio. Não seja confundido nem de mim escarneçam os inimigos. Não serão confundidos os que esperam em Vós.

Introdução ao espírito da Celebração

Começamos, no primeiro Domingo do Advento, um novo ano litúrgico. Nele somos convidados a preparar a vinda do Senhor.

À semelhança da natureza a qual, depois de uma morte aparente manifestada pelas folhas secas, as plantas começam a revestir-se de folhas e flores, até nos oferecerem os saborosos frutos, de modo semelhante somos instados a despertar da morte aparente da tibieza, para oferecermos ao Senhor as folhas e flores dos bons desejos e os frutos saborosos das boas obras.

Acto penitencial

Ocupados pelas preocupações desta vida terrena, esquecemos com muita facilidade o verdadeiro motivo por que nos encontramos aqui e procedemos como se tivéssemos de viver aqui para sempre.

Imploremos a misericórdia do Senhor para os nossos pecados por pensamentos, palavras, obras e omissões e prometamos, com a Sua ajuda, emenda de vida.

Deus todo poderoso tenha compaixão de nós, perdoe os nossos pecados e nos conduza à vida eterna.

Oração colecta: Despertai, Senhor, nos vossos fiéis a vontade firme de se prepararem, pela prática das boas obras, para ir ao encontro de Cristo, de modo que, chamados um dia à sua direita, mereçam alcançar o reino dos Céus. Por Nosso Senhor…

Liturgia da Palavra

Primeira Leitura

Monição: Isaías profetiza acerca do Dia do Senhor. A pesar dos pecados do Seu Povo e da infeliz situação em que Judá se encontra, o profeta vislumbra um horizonte de esperança pela restauração que vai operar a vinda messiânica e escatológica. Nela está sublinhado lugar central e universal de Sião, «o monte do Senhor», isto é, Jerusalém, figura da Igreja.

Isaías 2, 1-5 1

Visão de Isaías, filho de Amós, acerca de Judá e de Jerusalém:
2 Sucederá, nos dias que hão-de vir, que o monte do templo do Senhor se há-de erguer no cimo das montanhas e se elevará no alto das colinas. 3Ali afluirão todas as nações e muitos povos acorrerão, dizendo: «Vinde, subamos ao monte do Senhor, ao templo do Deus de Jacob. Ele nos ensinará os seus caminhos e nós andaremos pelas suas veredas. De Sião há-de vir a lei e de Jerusalém a palavra do Senhor». 4Ele será juiz no meio das nações e árbitro de povos sem número. Converterão as espadas em relhas de arado e as lanças em foices. Não levantará a espada nação contra nação, nem mais se hão-de preparar para a guerra. 5Vinde, ó casa de Jacob, caminhemos à luz do Senhor.


Esta pequena leitura é um dos mais belos textos poéticos de todo o Antigo Testamento, um cântico de exaltação da Jerusalém ideal e da paz messiânica. É um texto paralelo a Miq 4, 1-3.

1 «Isaías, filho de Amós», não o profeta do séc. VIII que pregou no reino do Norte, pois em hebraico o nome tem outra grafia.

2-3 Numa visão puramente humana, podia pensar-se que estamos diante dum texto sionista. A verdade é que o texto transcende o campo político e move-se num clima escatológico e messiânico: «Jerusalém», ou «Sião», é imagem da Igreja, «a nova Jerusalém» (cf. Gal 4, 26; Apoc 21, 2-4.10-27), para onde «afluirão todas as nações e muitos povos acorrerão» (v. 3). Isaías anuncia a conversão dos povos (gentios) ao único Deus, o de Israel, uma conversão que é dom de Deus, mas que também implica esforço humano – «subamos…» e docilidade – «Ele nos ensinará… e nós andaremos…». Os povos sentir-se-ão atraídos pela sublimidade de uma lei e de uma doutrina, que é a própria «palavra do Senhor». O texto pressupõe um pregador desta palavra, um profeta; e Jesus é o Profeta messiânico por excelência (cf. Act 3, 22; Jo 1, 21; 6, 14; Lc 7, 16). De qualquer modo, a Liturgia do Advento, nesta «palavra do Senhor que sairá de Jerusalém», leva-nos a vislumbrar o Verbo de Deus que se há-de manifestar no mistério da sua Incarnação a celebrar no Natal que se aproxima.

4 A paz messiânica, aqui imaginosamente descrita, não se pode considerar como algo meramente ideal, utópico e irreal; com efeito, com a fundação da Igreja, Cristo lançou no mundo um eficacíssimo fermento de paz e de unidade de todo o género humano; e quando todos os homens aderirem sinceramente a Cristo e à sua Igreja teremos a plena realização desta imagem tão bela como arrojada: as espadas convertidas em relhas de arado e as lanças em foices. É de notar que o Deus da Revelação jamais poderá ser invocado por ninguém como «um factor de guerra»; seria uma forma retorcida e refinada de «invocar o santo nome de Deus em vão», contrariando um absoluto moral bem claro, que é o segundo preceito do Decálogo (cf. Ex 20, 7; Dt 5, 11).

Salmo Responsorial Salmo 121 (122), 1-2.4-5.6-7.8-9 (R. cf. 1)

Monição: Na cidade santa de Jerusalém encontravam os hebreus o resumo das promessas de salvação do Senhor. Por isso, ao dirigirem-se para lá, cantavam o salmo 121, exprimindo a sua alegria por caminharem ao encontro da salvação prometida.

Refrão: Vamos com alegria para a casa do Senhor.

Alegrei-me quando me disseram:
«Vamos para a casa do Senhor».
Detiveram-se os nossos passos
às tuas portas, Jerusalém.

Para lá sobem as tribos, as tribos do Senhor,
segundo o costume de Israel, para celebrar o nome do Senhor;
ali estão os tribunais da justiça,
os tribunais da casa de David.

Pedi a paz para Jerusalém:
«Vivam seguros quantos te amam.
Haja paz dentro dos teus muros,
tranquilidade em teus palácios».

Por amor de meus irmãos e amigos,
pedirei a paz para ti.
Por amor da casa do Senhor,
pedirei para ti todos os bens.

Segunda Leitura

Monição: S. Paulo exorta os fieis de Roma a prestar atenção ao tempo de salvação em que vivemos.

Estamos em tempo de prova, perante a última oportunidade que o Senhor nos oferece para nos salvarmos. Esta verdade de fé impõe-nos uma conduta de vigilância e generosidade.

Romanos 13, 11-14

11 Irmãos: Vós sabeis em que tempo estamos: chegou a hora de nos levantarmos do sono, porque a salvação está agora mais perto de nós do que quando abraçámos a fé. A noite vai adiantada e o dia está próximo. Abandonemos as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz. 13Andemos dignamente, como em pleno dia, evitando comezainas e excessos de bebida, as devassidões e libertinagens, as discórdias e os ciúmes; 14não vos preocupeis com a natureza carnal, para satisfazer os seus apetites, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo.

A leitura, tirada da parte moral e exortatória da epístola (Rom 12, 1 – 15, 13), está em consonância com o Evangelho de hoje, constituindo uma forte exortação à vigilância, a atitude de que quem espera a vinda de Jesus, pois «o dia está próximo» (v. 12). A Santa Igreja, com estas leituras no começo do Advento, tempo de preparação para o Natal, pretende ajudar os seus filhos a que, ao celebrarem a primeira vinda de Jesus, se preparem também para a sua vinda definitiva.

Há quem pense, com base em Ef 5, 14 que esta passagem do texto da leitura corresponda a um hino baptismal da Igreja primitiva (H. Schlier). Podemos também perguntar-nos se Paulo não estaria a pensar numa proximidade cronológica do fim dos tempos e da segunda vinda de Cristo, tendo em conta o que diz em 1 Tes 4, 15.17 e 1 Cor 15, 51-52; a verdade é que não temos aqui qualquer espécie de especulação apocalíptica, mas antes a especificação do que é a existência cristã, a saber, uma vida aberta ao futuro, em atitude de fé e de esperança, abraçando as exigências de vigilância e de renúncia às obras das trevas e à satisfação dos apetites carnais, uma vida nova, que é revestir-se do Senhor Jesus Cristo (v. 14).

11 «Chegou a hora de nos levantarmos do sono» (uma boa esporada para começar o ano litúrgico). O sono é próprio da noite; e a noite é imagem da morte e do pecado, «as obras das trevas», (v. 12); por outro lado, há uma afinidade ontológica entre o cristão e o dia – a luz -, uma exigência do ser cristão, uma vez que Cristo é a luz do mundo: «vós sois a luz do mundo» (Mt 5, 14) e «Eu sou a luz do mundo» (Jo 8, 12); o cristão é aquele que deixou iluminar a sua alma, a sua vida, os seus pensamentos, por Cristo, «a luz que brilha nas trevas» (Jo 1, 5), por isso, «a noite vai adiantada» (v. 12), e, embora ainda não seja pleno dia, já temos a luz suficiente para seguir a Cristo e não ao pecado. Com razão os cristãos são designados com o genitivo hebraico de qualidade, «filhos da luz»: Lc 16, 8; Jo 12, 36; Ef 5, 8; 1 Tes 5, 5 (aqui também chamados «filhos do dia»)

12 «Obras das trevas»: o mesmo que obras tenebrosas ou pecaminosas, muitas das quais, como as que aponta o v. 13, se costumam praticar na clandestinidade da escuridão e da noite.

«Armas da luz», são as virtudes, em especial as teologais (cf. 1 Tes 5, 8; Ef 6, 13-17). Notar que esta expressão paulina, armas, uma vez mais põe em evidência que a vida cristã é uma luta diária.

14 «Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo». Revestir-se, na linguagem bíblica, não significa apenas vestir uma farda (nas festas pagãs, os iniciados vestiam-se à maneira da divindade celebrada), mas trata-se duma identificação na linha do ser: assim, no A. T., revestir-se de justiça, de força, etc., corresponde a tornar-se justo, forte, etc. Revestir-se de Cristo é, pois, identificar-se com Cristo, «ter os mesmos sentimentos de Cristo» (Filp 2, 5). O fiel revestido de Cristo, a partir do Baptismo (cf. Gal 3, 27), tem ainda que se deixar impregnar cada vez mais intensamente por Ele nos novos sectores para os quais se vai abrindo a sua vida, ao desenvolver-se. Ser de Cristo é crucificar a sua carne com todo o cortejo dos seus vícios e apetites desordenados (cf. Gal 5, 24).

Aclamação ao Evangelho

Salmo 84, 8

Monição: Nesta caminhada de salvação, contamos principalmente com a misericórdia do Senhor para a alcançarmos. Com a certeza de que o Senhor nunca falta às Suas promessas, aclamemos com alegria o Evangelho da salvação.

Aleluia

Mostrai-nos, Senhor, a vossa misericórdia e dai-nos a vossa salvação.

Evangelho

São Mateus 24, 37-44

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 37«Como aconteceu nos dias de Noé, assim sucederá na vinda do Filho do homem. 38Nos dias que precederam o dilúvio, comiam e bebiam, casavam e davam em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca; 39e não deram por nada, até que veio o dilúvio, que a todos levou. Assim será também na vinda do Filho do homem. 40Então, de dois que estiverem no campo, um será tomado e outro deixado; 41de duas mulheres que estiverem a moer com a mó, uma será tomada e outra deixada. 42Portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor. 43Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a sua casa. 44Por isso, estai vós também preparados, porque na hora em que menos pensais, virá o Filho do homem».

O Evangelho de hoje recolhe apenas 8 vv. do que se pode chamar o núcleo ético do discurso escatológico de Jesus em Mateus (Mt 24, 1 – 25, 46), a saber, a exortação moral à vigilância (Mt 24, 37 – 25, 30). Neste pequeno trecho podemos considerar três partes: vv. 37-39; 40-41; 42-44.

37-39 «Como aconteceu nos dias de Noé…» Jesus, segundo os ensinamentos morais rabínicos, apela para a lição do dilúvio: as pessoas preocupadas com a satisfação das necessidades imediatas, comer, beber, casar, esquecem o mais importante e são apanhadas de surpresa, sem estarem preparadas para dar contas a Deus da sua vida na hora duma morte inesperada (cf. Sab 10, 4; Hebr 11, 7; 1 Pe 3, 20; 2 Pe 2, 5).

40-41 O carácter imprevisível da vinda de Jesus é ilustrado com dois casos tirados da vida corrente em que uma pessoa se salva e a outra perece, para daqui tirar a lição moral (o nimxal rabínico): «portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia virá…».

42-44 A parábola do ladrão vem reforçar a lição moral anterior sobre a vigilância, repetida no v. 44, com outras palavras: «Estai vós também preparados!» Esta incerteza é para nós um bem, um estímulo. Se soubéssemos o dia do juízo, corríamos grande risco de nos desleixarmos em fazer o bem e de nos deixarmos arrastar pelo mal, sendo então muito mais fácil que nos viéssemos a condenar. Devemos estar vigilantes e preparados, como se cada dia fosse o último da nossa vida. O Senhor virá como um ladrão, mas apenas no que se refere ao imprevisto da hora, pois, sendo Ele o melhor dos pais, escolherá a melhor hora para os seus filhos, mas respeitando a liberdade de cada um.

Sugestões para a homilia

- Deus vem ao nosso encontro Vivemos numa atitude de espera Deus vem para nos salvar Ele respeita a nossa liberdade

- Ele vem para nos salvar Atenção aos sinais reveladores A esperança cristã Um programa para o Advento

1. Deus vem ao nosso encontro

A Igreja convida-nos, neste tempo do Advento, a preparar ais generosamente o acolhimento ao Senhor que nos vem salvar.

a) Vivemos numa atitude de espera. «Sucederá nos dias que hão-de vir, que o monte do templo do Senhor se há-de erguer no cima das montanhas e se elevará no alto das colinas.» Encontramo-nos perante as três vindas de Jesus Cristo que convergem numa só:

Ao preparar a vinda histórica de Jesus, leva-nos a comungar na esperança dos Patriarcas e Profetas que, ao longo do Antigo Testamento, suspiraram pela Sua vinda. Vamos celebrá-la – torná-la presente e participar nela – quando celebrarmos o Natal do Senhor. Como aquele que, sem apetite, quando se senta à mesa, o sente despertar, perante o dos outros, a Igreja, com a sua pedagogia de Mãe, coloca diante de nós as aspirações destes justos do Antigo Testamento, para despertar em nós estes mesmos desejos.

Aponta-nos para a vinda escatológica, no fim dos tempos, quando Ele vier sobre as nuvens do Céu, para julgar os vivos e os mortos e convida-nos a estar preparados para esse momento. A lembrança deste acontecimento ajuda-nos a olhar com maior seriedade a nossa vida de cada dia e a ter as contas da alma em ordem.

Anima-nos a um esforço para crescer na vida de intimidade com Deus, para que se torne realidade, no íntimo de cada um de nós, a vinda espiritual. Concretiza-se na renovação da nossa vida cristã, sacudindo toda a poeira da tibieza, para crescermos na intimidade com Deus.

b) Deus vem para nos salvar. «Ali afluirão todas as nações e muitos povos acorrerão…» A mensagem evangélica é claramente positiva e optimista. Não é tecida de ameaças de condenação, mas de promessas de salvação.

Na verdade, Deus ama-nos, e não Se cansa de nos oferecer provas do Seu amor infinito por nós. Ele não nos diz que ama a humanidade, mas os homens, cada um de nós.

Anima-nos a pôr a nossa vida em ordem, e a trabalhar pela santidade pessoal, recordando-nos que estamos em tempo de prova, à conquista de um prémio eterno.

Não podemos ficar em desejos vagos de melhorar a vida espiritual. É urgente formular propósitos concretos, indo ao encontro do nosso defeito dominante e ajudando os outros a uma vida mais feliz, a começar pela própria família. Por isso S. Paulo nos convida a despertar do sono. Despertar é um acto pessoal em que podemos ser ajudados, mas ninguém nos pode substituir a fazê-lo.

c) Ele respeita a nossa liberdade. «Vinde, subamos ao monte do Senhor ao templo do Deus de Jacob. Ele nos ensinará os Seus caminhos e nós andaremos pelas Suas veredas.» Que programa temos para este Advento que agora começa? Vamos deixar que tudo continue com a mesma rotina e frieza de sempre? Dentro dos nossos propósitos estão o acolhimento à Palavra de Deus, a mortificação pessoal, eliminando pequenos caprichos que se tornaram hábitos desnecessários e até prejudiciais e partilhando com os outros o nosso entusiasmo de caminhar ao encontro do Senhor.

Somos um povo em marcha. Também Maria Santíssima, depois de ter acolhido o Filho de Deus nas suas entranhas virginais, caminhou ao encontro de Isabel para lhe levar a alegria e a graça para o filho que trazia em seu ventre.

2. Ele vem para nos salvar

a) Atenção aos sinais reveladores. «Como aconteceu nos dias de Noé [...] não deram por nada, até que veio o dilúvio, que a todos levou.» A grande tentação dos homens de hoje é procurar o gozo do momento presente, sem olhar ao futuro, numa total falta de esperança. Por falta de fé, muitas pessoas hoje não esperam nada no futuro. Procura-se apenas uma vida light, sem riscos, sem responsabilidades: o sexo sem risco, o tabaco sem nicotina, a cerveja sem álcool…

Paralelamente a este modo de pensar, as pessoas sofrem hoje de uma grande incapacidade para se comprometerem para sempre. O medo ao compromisso definitivo, para sempre, é um dos grandes obstáculos na descoberta e na vivência de qualquer vocação. E como a vida não tem horizontes, surge a depressão, o suicídio, a união de facto, o divórcio.

b) A esperança cristã. «Chegou a hora de nos levantarmos do sono, porque a salvação está agora mais perto de nós…» É preciso levantar de novo a bandeira da esperança cristã. A nossa vida tem um sentido precisamos orientar a vida por ele.

A nossa vida tem um sentido: somos filhos de Deus e procuramos viver e intensificar na terra uma comunhão de vida com o Senhor e os irmãos para a continuar eternamente no Céu. O Pai ama-nos tanto que nos dá o Seu Filho Unigénito para nos salvar. Ele assume a nossa natureza humana, com todas as suas limitações, para Ser um de nós e nos elevar à Sua altura.

Todo o Advento nos lembra esta loucura de Deus que nos ama e faz tudo o que está nas Suas mãos – sem nos privar da liberdade pessoal, para nos salvar. Seja qual for a situação em que nos encontremos, temos sempre abertos os braços do Pai para nos acolher.

c) Um programa para o Advento. «Portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia virá o Senhor.» Toda a preparação do Advento a que a Igreja nos convida pode resumir-se na vigilância.

Para explicar a importância fundamental desta atitude na vida cristã, Jesus lança mão de duas imagens: o descuido dos contemporâneos de Noé, tão distraídos que não se aperceberam dos cuidados dele na construção da arca; e a imagem do ladrão que espera o momento em que a vítima está mais descuidada para desferir o golpe.

S. Paulo concretiza esta vigilância na Carta aos fiéis de Roma:

- Acordar do sono em que nos deixamos cair. A rotina e o desleixo invadem a nossa vida e acabamos por deixar de rezar e fazer desleixadamente a nossa oração. A tibieza tolhe o nosso verdadeiro amor na vida. É tempo de ressuscitar, de começar uma vida nova.

- Abandonemos as obras das trevas. As obras das trevas são todas aquelas que estão contra a Lei de Deus. S. Paulo sublinha duas delas: é preciso evitar comezainas e excessos na comida e na bebida.

Tudo isto nos fala da necessidade da mortificação cristã. Façamos um plano de pequenas mortificações que nos ajudem a viver cada vez mais despertos para o Natal que se aproxima.

- Revistamo-nos das armas da luz. Para ser santo não basta não fazer mal. É preciso realizar boas obras: oração, testemunho de caridade e de alegria. Mas, para as realizarmos, temos necessidade da luz da formação doutrinal. Sem ela não somos capazes de procurar o bem, a vontade de Deus.

- Andemos dignamente, como em pleno dia. Uma vida fundada na verdade, sem disfarces, eis o que o Senhor nos propõe neste princípio do Advento. Viver em pleno dia pode significar para nós conformar o comportamento com a nossa condição social, sem procurar grandezas artificiais e adoptar como lema nunca realizar qualquer obra da qual nos venhamos a envergonhar no juízo final. O melhor modo de viver bem este Advento é participar cada vez melhor na Celebração da Eucaristia, deixando-nos banhar pela Palavra de Deus e alimentando-nos com o Corpo e Sangue do Senhor.

Junto de Maria Santíssima – por uma devoção filial – aprenderemos a esperar e preparar a vinda ao mundo d’Aquele que vem para nos salvar.

Fala o Santo Padre

1. Começa hoje, primeiro Domingo do Advento, um novo ano litúrgico, durante o qual contemplaremos com particular ardor o rosto de Cristo, presente na Eucaristia. Jesus, Verbo encarnado, morto e ressuscitado, é o centro da história. A Igreja adora-O e vislumbra nele o sentido último e unificador de todos os mistérios da fé: o amor de Deus que dá a vida. […]

João Paulo II, Angelus, 28 de Novembro de 2004

Liturgia Eucarística

Introdução à Liturgia Eucarística

A Liturgia da Palavra é inseparável da Liturgia Eucarística, no santo Sacrifício do Altar. A Palavra de Deus purifica-nos para tomarmos parte no Banquete Eucarístico.

Recolhamo-nos, pois, e avivemos a nossa fé ainda mais, para celebrarmos estes augustos mistérios.

Oração sobre as oblatas: Aceitai, Senhor, estes dons que recebemos da vossa bondade e fazei que os sagrados mistérios que celebramos no tempo presente sejam para nós penhor de salvação eterna. Por Nosso Senhor.

Prefácio do Advento I: p. 453 (586-698)

Saudação da Paz

Toda a paz vem de Deus como um dom que o Pai nos dá pelo Seu Filho Jesus Cristo. Este dom será nosso, na medida em que nos disponibilizemos a aceitá-lo humildemente. Esta aceitação concretiza-se no propósito de acolhermos os nossos irmãos, pedindo perdão das ofensas cometidas e perdoando as que nos foram feitas. Com estas disposições, Saudai-vos na paz de Cristo!

Monição da Comunhão: Sem o mistério da Encarnação, no qual Maria ofereceu a Jesus tudo o que Ele tem de humano, a nossa comunhão sacramental não seria possível.

Imitando Maria, nossa Mãe, no momento da Anunciação, acolhamos em nós com fé, pureza e devoção, o Filho de Deus que Se nos dá em alimento.

Antífona da comunhão: O Senhor nos dará todos os bens e a nossa terra produzirá o seu fruto.

Oração depois da comunhão: Fazei frutificar em nós, Senhor, os mistérios que celebramos, pelos quais, durante a nossa vida na terra, nos ensinais a amar os bens do Céu e a viver para os valores eternos. Por Nosso Senhor.

Ritos Finais

Monição final: Vamos continuar a Missa no convívio da família, nas preocupações do trabalho e na convivência com os amigos e familiares. Levemos-lhes a esperança de Jesus Cristo nos ama, nos procura e quer salvar-nos.

Homilias Feriais

TEMPO DO ADVENTO 1ª SEMANA

2ª feira, 3-XII: S. Francisco Xavier: Confiança no Senhor.

Is 4, 2-6 / Mt 8, 5-11

A glória do Senhor será uma cobertura e uma tenda para servir de sombra contra o calor do dia e de refúgio e de abrigo contra a chuva e a tempestade.

O profeta Isaías proclama ao povo de Deus uma mensagem de confiança, destinada a todos, pela próxima vinda do Messias (cf. Leit). E Jesus realiza um milagre, sublinhando a fé do centurião (cf. Ev).

A cura das nossas feridas, dos nossos defeitos, vai igualmente exigir de nós uma maior fé e confiança em Deus. O Senhor precisa encontrar em nós uma maior fé: «Não encontrei tão grande fé» (Ev). Que o Senhor nos conceda a todos uma fé grande como a de S. Francisco Xavier, que o levou a evangelizar a Índia e o Japão, convertendo muitos à fé.

3ª feira, 4-XII: Os frutos da actuação do Espírito Santo.

Is 11, 1-10 / Lc 10, 21-24

Sobre ele repousará o Espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de inteligência…

Isaías anuncia a actuação do Espírito Santo no Messias esperado (cf. Leit). Jesus estremece de alegria, pela acção do Espírito Santo (cf. Ev).

Esta plenitude do Espírito Santo há-de ser comunicada a todo o povo de Deus e os frutos serão abundantes: à hora de julgar, teremos uma ajuda da sabedoria divina, para julgarmos correctamente; distribuiremos à nossa volta um ambiente de convivência pacífica; os ensinamentos do Senhor serão a bandeira do nosso lar e da nossa terra; levaremos todos para a casa do Senhor (cf. Leit).

4ª feira, 5-XII: S. Frutuoso, S. Martinho do Dume e S. Geraldo: Só Deus pode saciar a nossa ‘fome’.

Is 25, 6-10 / Mt 15, 29-37

O Senhor do Universo há-de preparar, para todos os povos… um banquete de pratos suculentos, um banquete com excelentes vinhos.

O profeta anuncia a oferta de um banquete por parte do Messias (cf. Leit). Jesus realizou um dia esse banquete, pelo milagre da multiplicação dos pães e dos peixes (cf. Ev). O banquete é-nos servido diariamente na Eucaristia, na mesa do altar, e terá a sua consumação na vida eterna. Mantenhamos este desejo de recebê-lo bem para que Ele também nos receba bem na vida eterna. Só Ele poderá aliviar a dor do luto e da morte, e enxugar as nossas lágrimas (cf. Leit). Os Santos Bispos de Braga ensinaram os mistérios do Reino matando a fome a muitos fiéis.

5ª feira, 6-XII: Confiança na Palavra de Deus.

Is 26, 1-6 / Mt 7, 21. 24-27

Confiai sempre no Senhor, que é uma rocha eterna.

O profeta aconselha-nos a confiar sempre no Senhor (cf. Leit). Jesus é o Verbo, a Palavra de Deus, e anima-nos a ouvir e a pôr em prática as suas palavras (cf. Ev). Esta confiança na sua palavra exige, em primeiro lugar, ouvir bem o que o Senhor nos diz na oração, na leitura da Escritura, sobre os problemas que nos afectam diariamente no trabalho, na vida familiar, na construção de uma sociedade mais justa, etc. E, depois, a levá-lo à prática, para evitar que os costumes mundanos derrubem as nossas convicções (cf. Ev). Só assim seremos um bom apoio para os que nos rodeiam.

6ª feira, 7-XII: S. Ambrósio: Cura da cegueira espiritual.

Is 29, 17-24 / Mt 9, 27-31

Nesse dia, os surdos ouvirão a palavra do livro divino; libertos da escravidão e das trevas, os olhos dos cegos hão-de ver.

O profeta anuncia a realização de grandes prodígios, com a vinda do Messias (cf. Leit). Entre esses prodígios está a cura de dois cegos, que reconhecem o filho de David messiânico (cf. Ev).

Que o Senhor nos abra igualmente os olhos para a luz divina, que se desprende de Jesus, para podermos vê-lo nas pessoas que nos rodeiam, nos acontecimentos de cada dia; para vermos cada pessoa com sentimentos de misericórdia. S. Ambrósio era iluminado pela luz divina quando anunciava a palavra de Deus (cf. Oração sobre as Oblatas).

Celebração e Homilia: Fernando Silva
Nota Exegética: Geraldo Morujão
Homilias Feriais: Nuno Romão
Sugestão Musical: Duarte Nuno Rocha

Fonte: Celebração Litúrgica

Solenidade de Cristo Rei (Ano C)


Roteiro Homilético – Solenidade de Cristo Rei (Ano C)

RITOS INICIAIS

Ap 5, 12; 1, 6

Antífona de entrada: O Cordeiro que foi imolado é digno de receber o poder e a riqueza, a sabedoria, a honra e o louvor. Glória ao Senhor pelos séculos dos séculos.

Diz-se o Glória.
Introdução ao espírito da Celebração

Celebramos hoje Jesus Cristo como Rei Universal. Fixemos os olhos em Jesus pregado na Cruz que temos junto a este altar. Uma cruz é o seu trono real. É a partir daqui, da sua morte pelos nossos pecados, que Jesus Cristo estabelece o seu reinado, um reino de paz e de reconciliação universal. Com os sentimentos do ladrão arrependido peçamos perdão por todas as vezes que pusemos obstáculos ao reinado de Cristo no nosso coração e à nossa volta (pausa). Confessemos que somos pecadores.

Oração colecta: Deus eterno e omnipotente, que no vosso amado Filho, Rei do universo, quisestes instaurar todas as coisas, concedei, propício que todas as criaturas, libertas da escravidão, sirvam a vossa majestade e Vos glorifiquem eternamente. Por Nosso Senhor…

Liturgia da Palavra Primeira Leitura

Monição: O 2º livro de Samuel conta-nos como rei David é aclamado rei de todas as tribos de Israel. É uma figura de Jesus Cristo, que tem de ser reconhecido como Rei de toda a humanidade.
2 Samuel 5, 1-3

1Naqueles dias, todas as tribos de Israel foram ter com David a Hebron e disseram-lhe: «Nós somos dos teus ossos e da tua carne. 2Já antes, quando Saúl era o nosso rei, eras tu quem dirigia as entradas e saídas de Israel. E o Senhor disse-te: ‘Tu apascentarás o meu povo de Israel, tu serás rei de Israel’». 3Todos os anciãos de Israel foram à presença do rei, a Hebron. O rei David concluiu com eles uma aliança diante do Senhor e eles ungiram David como rei de Israel.

Aqui David é ungido em Hebron como rei de Israel. Se bem que já tinha sido ungido perante os seus irmãos por Samuel (1 Sam 16), só a partir deste momento é que David é reconhecido como rei por todas as tribos; ele é a figura de Cristo, Rei de todos os homens.

2 «Entradas e saídas» é uma expressão muito corrente nas Escrituras e que é uma rica metáfora para indicar toda a vida duma pessoa, o seu dia a dia, a vida corrente. De facto, por um lado, a vida do homem sobre a terra está enquadrada por dois momentos decisivos: uma entrada ao nascer e uma saída ao morrer; por outro lado, como as casas não eram para se viver nelas, toda a vida se desenrolava entre um sair de casa para trabalhar e um entrar para descansar.

Salmo Responsorial Sl 121 (122), 1-2.4-5 (R. cf. 1)

Monição: Este Salmo é um cântico de peregrinação, que exprime a alegria do peregrino ao avistar o templo do Senhor. Vamos também nós com alegria ao encontro de Jesus, o nosso Rei.
Refrão: Vamos com alegria para a casa do Senhor.

Alegrei-me quando me disseram:

«Vamos para a casa do Senhor».

Detiveram-se os nossos passos

às tuas portas, Jerusalém.

Jerusalém, cidade bem edificada,

que forma tão belo conjunto!

Para lá sobem as tribos,

as tribos do Senhor.

Para celebrar o nome do Senhor,

segundo o costume de Israel;

ali estão os tribunais da justiça,

os tribunais da casa de David.

Segunda Leitura

Monição: A 2ª leitura de hoje é um hino a Cristo, que tem uma supremacia absoluta sobre toda a Criação, como o seu Criador. Ele é também o nosso Rei porque deu a sua vida por nós e nos pôs em paz com Deus pelo Sangue da sua Cruz.
Colossenses 1, 12-20

Irmãos: 12Damos graças a Deus Pai, que nos fez dignos de tomar parte na herança dos santos, na luz divina. 13Ele nos libertou do poder das trevas e nos transferiu para o reino do seu Filho muito amado, 14no qual temos a redenção, o perdão dos pecados. 15Cristo é a imagem de Deus invisível, o Primogénito de toda a criatura; 16porque n’Ele foram criadas todas as coisas no céu e na terra, visíveis e invisíveis, Tronos e Dominações, Principados e Potestades: por Ele e para Ele tudo foi criado. 17Ele é anterior a todas as coisas e n’Ele tudo subsiste. 18Ele é a cabeça da Igreja, que é o seu corpo. Ele é o Princípio, o Primogénito de entre os mortos; em tudo Ele tem o primeiro lugar. 19Aprouve a Deus que n’Ele residisse toda a plenitude 20e por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas, estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz, com todas as criaturas na terra e nos céus.

O texto da nossa leitura, com um certo sabor de um hino a Cristo, condensa o ensino central desta carta do cativeiro, e é uma das belas e ricas sínteses da cristologia paulina. Em face da chamada «crise de Colossas», em que alguns põem em causa a primazia absoluta de Cristo, colocando-O ao nível de outros seres superiores e intermédios, quer da cultura pagã, quer da cultura judaica, S. Paulo ensina peremptoriamente a mais completa supremacia de Cristo na ordem da Criação – vv. 15-17 – e na ordem da Redenção – vv. 18-20, em virtude da sua acção redentora, que reconcilia todas as coisas com Deus na paz.

15-16 «Cristo é a imagem de Deus invisível». Imagem, para um semita, não é simplesmente a figuração duma realidade, de natureza distinta, mas é, antes de mais, a exteriorização sensível da própria realidade oculta e da sua mesma essência. Assim, é afirmada a divindade de Cristo, o qual nos torna visível e tangível o próprio Deus invisível e transcendente (cf. Jo 1, 18; 14, 9-11; 2 Cor 4, 4; Hbr 1, 3). Cristo também é «o Primogénito de toda a criatura», no sentido da sua preeminência única sobre todas as criaturas, não só por Ele existir antes de todas, não, porém, no sentido ariano de primeira criatura, mas enquanto todas foram criadas «n’Ele», «por Ele» e «para Ele» (v.16). Não se diz no texto que Cristo seja uma criatura primogénita, mas o que se diz é que Ele é primogénito porque está acima de todas as criaturas, e porque «em tudo Ele tem o primeiro lugar» (v. 18); também Jacob era primogénito, embora não tivesse nascido primeiro que Isaú.

18-20 Na ordem da Graça e da Redenção, também «em tudo Ele tem o primeiro lugar» (v. 18), pois Ele é a «cabeça da Igreja, que é o seu corpo», é o «Princípio, o Primogénito (o primeiro a ressuscitar) entre os mortos». Enfim, «aprouve a Deus que residisse n’Ele a plenitude», isto é, a totalidade de todos os tesouros da graça que Deus comunica ao homens depois do pecado, em ordem à reconciliação que Ele realiza «pelo sangue da sua Cruz» (v. 20). Em Col 2, 9 diz-se que em Cristo «habita corporalmente toda a plenitude da natureza divina».

Em suma, como se exprime, em rica síntese, a Bíblia de Pirot, Cristo tem a supremacia absoluta em todos os aspectos: na ordem natural, pela criação (vv. 16.17); na ordem da graça, como Redentor (v. 20); na ordem moral e mística, como Cabeça do Corpo Místico (v. 18a); e na ordem escatológica, pela sua Ressurreição (v. 18b).

Aclamação ao Evangelho

Monição: Aclamemos o Evangelho da salvação, que hoje nos mostra como Jesus estabelece o seu reinado a partir da sua Cruz, perdoando ao ladrão arrependido.
Aleluia

Bendito O que vem em nome do Senhor!

Bendito o reino do nosso pai David!
Evangelho

Lucas 23, 35-43

35Naquele tempo, os chefes dos judeus zombavam de Jesus, dizendo: «Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito». 36Também os soldados troçavam d’Ele; aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam: 37«Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo». Por cima d’Ele havia um letreiro: «Este é o Rei dos judeus». 38Entretanto, um dos malfeitores que tinham sido crucificados insultava-O, dizendo: «Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também». 40Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: «Não temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? 41Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo das nossas más acções. Mas Ele nada praticou de condenável». 42E acrescentou: «Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a tua realeza». 43Jesus respondeu-lhe: «Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso».

O paradoxo de um rei crucificado, sujeito ao sarcasmo mais aviltante (vv. 35-39), é o que há de mais impensável, para Jesus poder ser anunciado como o Messias Rei, não só para os judeus, mas para toda a Humanidade. Só se pode apresentar deste modo a Jesus, se Ele é mesmo Rei de verdade, embora seja um escândalo para os judeus e uma loucura para os gentios (cf. 1 Cor 1, 23); para nós, é a salvação mais comovedora que Deus nos pode oferecer, é o Rei que nos conquista pela máxima prova de amor.

Jesus, que, diante de Pilatos, já tinha declarado o que não é a sua realeza (cf. Jo 18, 36), não explicando mais, porque o prefeito romano não se interessa pela verdade (cf. Jo 18, 38), abre agora o seu coração a um criminoso, que, do meio do seu suplício, implora arrependido a misericórdia divina; Jesus revela-lhe que realeza é a sua e onde está o seu Reino: no «Paraíso», o Céu, onde vai entrar «hoje» mesmo (v. 43), sem ser preciso esperar por uma consumação escatológica geral do final dos tempos, segundo a expressão, «quando vieres com a tua realeza» (v. 42), própria do Messias, ao dar-se a ressurreição final.

Na cena do ladrão arrependido fica patente a natureza do Reino de Cristo: é um reinado de perdão e misericórdia para conduzir os pecadores à salvação eterna.
Sugestões para a homilia

O sublime paradoxo da realeza de Jesus
Queremos que Ele reine: «Venha o teu Reino!»
Trabalhar eficazmente para a construção do Reinado de Cristo
O sublime paradoxo da realeza de Jesus

Jesus Cristo é a meta final da História. É, pois, com razão que encerramos o Ano Litúrgico aclamando-O como «Rei dos Reis e Senhor dos Senhores», o Senhor e Rei de todo o Universo.

E como é que este Rei nos aparece na leitura do Evangelho de hoje? Aquele letreiro afixado na Cruz está a proclamá-lo Rei. Aos olhos do vulgo, porém, Ele não passa de um rei de comédia… Feito objecto de troça e sarcasmo, é mesmo desafiado a mostrar o seu poder salvador: «salvou os outros, que se salve a si»; «se és rei, salva-te a ti e desce da Cruz!»

E Jesus mostra o seu poder salvador, não descendo do trono da Cruz, mas levando a cabo, por meio dela, a obra da salvação da Humanidade! Pregado na Cruz, oculta a sua majestade e quer manifestar em que consiste a sua realeza: o perdão para os que O insultam e maltratam; a garantia do paraíso ao ladrão arrependido; o abrir-nos de vez as portas do Reino dos Céus até então fechadas pelo pecado. Não é reduzindo a nada os seus inimigos que Ele estabelece o seu reinado, mas provocando o amor das suas criaturas com o amor que lhes mostra «até ao fim»; assim reconcilia com Deus todas as coisas, «estabelecendo a paz, pelo sangue da sua Cruz, com todas as criaturas na terra e nos céus» (2ª leitura). O seu reino é «um reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, de amor e de paz» (prefácio da oração eucarística).

Jesus é Rei porque é Deus feito homem: «n’Ele reside toda a plenitude», isto é, n’Ele “habita corporalmente toda a plenitude da natureza divina” (2ª leitura e Col 2, 9), por isso «em tudo Ele tem o primeiro lugar» (2ª leitura). Com efeito «por Ele e para Ele tudo foi criado» e «Ele é a Cabeça da Igreja, que é o seu Corpo» (ibid.).
Queremos que Ele reine: «Venha o teu Reino!»

Mas, assim como acontecia no Calvário, o drama da rejeição do amor deste Rei de Paz e de Misericórdia continua actual. Confrontamo-nos com uma sociedade que teima em viver de costas para Deus e que tenta impor um projecto de vida ao avesso do maravilhoso plano de amor e de paz inscrito no coração humano e na própria natureza das coisas. João Paulo II advertia que está a verificar-se a difusão duma mentalidade inspirada no laicismo e esta ideologia leva gradualmente à restrição da liberdade religiosa até promover um desprezo ou ignorância do religioso, relegando a fé para a esfera do privado e opondo-se à sua expressão pública, o que nada tem a ver com a justa laicidade do Estado. Ora «uma sociedade em que Deus é absolutamente ausente autodestrói-se; vimo-lo nos grandes regimes totalitários do século passado» (J. Ratzinger),

Em face desta situação, que vem já do séc. XVIII, Pio XI instituiu esta festa de Cristo Rei em 1925 e mais adiante promoveu a Acção Católica. O grito de S. Paulo, «é preciso que Ele reine» (1 Cor 15, 25) é a aspiração de todo o discípulo de Cristo, que quer opor aos desígnios dos homens da parábola de Lc 19, 14 – «não queremos que Ele reine» – um ideal apostólico, que veio a expressar-se no lema litúrgico: «Regnare Christum vólumus!» (Queremos que Cristo reine!). E foi assim que Jesus nos ensinou a rezar na oração do Pai-nosso: «Venha o teu Reino».
Trabalhar eficazmente para a construção do Reinado de Cristo

Perante o reinado de Cristo a nossa atitude não pode ser a de ficarmos passivos, limitando-nos a receber os bens do Reino. A vocação cristã implica a missão de ser apóstolo deste Reino. O Concílio Vaticano II, ao falar dos leigos, proclama que, «por própria vocação, compete aos leigos procurar o Reino de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as de acordo com Deus» (LG 31).

Para isso, antes de mais, temos de fazer com que Cristo reine plenamente em nós próprios. Que Ele reine na nossa inteligência, procurando conhecermos cada vez melhor as verdades da fé aderindo interiormente a elas; que Cristo reine na nossa vontade para que ela se identifique com o querer de Deus e o seu projecto de salvação; que Ele reine no nosso coração para que ele não se apegue a nada contrário ao amor de Deus. Só então poderemos dar um testemunho válido e contribuir eficazmente para o reinado de Cristo na nossa família, no nosso ambiente de trabalho, enfim, na sociedade em que vivemos.

O ponto de partida de todo o apostolado eficaz é a procura incansável da identificação com Cristo; esta é a meta que João Paulo II propôs para o novo milénio: «Em primeiro lugar, não hesito em dizer que o horizonte para que deve tender todo o caminho pastoral é a santidade… É preciso, pois, redescobrir, em todo o seu valor programático, o cap V da LG do Concílio, intitulado ‘vocação universal à santidade’» (NMI 30). A propósito, é bem expressivo aquele ponto de Caminho: «Um segredo, um segredo em voz alta: estas crises mundiais são crises de santos. Deus quer um punhado de homens ‘seus’ em cada actividade humana. Depois… ‘Pax Christi in regno Christi’ – a paz de Cristo no reino de Cristo» (nº 301).

Fala o Santo Padre

1. Hoje, último domingo do ano litúrgico, celebra-se a solenidade de Cristo Rei do universo.

Para Ele olhavam os Padres do Concílio Vaticano II quando, a 21 de Novembro de há quarenta anos, promulgaram a Constituição dogmática que começa com as palavras Lumem gentium cum sit Christus, «Sendo Cristo a luz dos povos».

A Lumen gentium marcou uma etapa no percurso da Igreja pelos caminhos do mundo contemporâneo e estimulou o Povo de Deus a assumir com mais decisão as suas responsabilidades na edificação daquele Reino que só terá o seu pleno cumprimento no além da história.

2. De facto, a animação evangélica da ordem temporal é um dever de cada baptizado, em particular dos fiéis leigos (cf. Lumen gentium, 31, 35, 36, 38, etc.). Subsídio útil para esta sua missão é também o Compêndio da Doutrina social da Igreja, publicado precisamente este ano pelo Pontifício Conselho «Justiça e Paz», ao qual renovo a minha gratidão. […]

João Paulo II, Angelus, Domingo, 21 de Novembro de 2004
Liturgia Eucarística

Cântico do ofertório: Todas as nações recebeu em herança, M. Faria, NRMS 3(II)

Oração sobre as oblatas: Aceitai, Senhor, este sacrifício da reconciliação humana e, pelos méritos de Cristo vosso Filho, concedei a todos os povos o dom da unidade e da paz. Por Nosso Senhor…
Prefácio

Cristo, Sacerdote e Rei do universo

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

Senhor, Pai Santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte:

Com o óleo da alegria consagrastes Sacerdote eterno e Rei do universo o vosso Filho, Jesus Cristo, Nosso Senhor, para que, oferecendo-Se no altar da cruz, como vítima de reconciliação, consumasse o mistério da redenção humana e, submetendo ao seu poder todas as criaturas, oferecesse à vossa infinita majestade um reino eterno e universal: reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz.

Por isso, com os Anjos e os Arcanjos e todos os coros celestes, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

Santo, Santo, Santo.

Monição da Comunhão

O ladrão arrependido pedia apenas que Jesus se lembrasse dele no seu Reino e Jesus introduziu-o no Reino dos Céus! Se nos encontramos com as devidas disposições, aproximemo-nos a receber a Cristo e deixemos que Ele reine de verdade na nossa vida, no nosso pensar, no nosso querer, para nos dispormos a trabalhar pelo seu reinado.
Salmo 28, 10-11

Antífona da comunhão: O Senhor está sentado como Rei eterno; O Senhor abençoará o seu povo na paz.

Cântico de acção de graças: Povos, batei palmas, C. Silva, NRMS 48

Oração depois da comunhão: Senhor, que nos alimentastes com o pão da imortalidade, fazei que, obedecendo com santa alegria aos mandamentos de Cristo, Rei do universo, mereçamos viver para sempre com Ele no reino celeste. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Ritos Finais

Monição final

É a hora do envio em missão. Vamos, pois, trabalhar para que Cristo reine de verdade, primeiramente em todo o nosso ser, na nossa alma e no nosso corpo; e, depois, em todos os ambientes em que nos movemos, no nosso lar, na nossa família e no nosso trabalho santificado, feito com perfeição, por amor, como uma oferta digna de Deus, para a sua glória.

Homilias Feriais 34ª SEMANA

2ª feira, 26-XI: Vida eterna e desapego dos bens.

Dan 1, 1-6. 8-20 / Lc 21, 1-4

E notou-se ao fim dos dez dias que eles… em tudo o que fosse questão de saber e inteligência… eram dez vezes superiores.

Daniel e seus companheiros deram um belo exemplo de austeridade nas comidas, e receberam uma recompensa maravilhosa (cf. Leit). Jesus exigirá como condição para ser seu discípulo que se renuncie a todos os bens por causa d’Ele e do Evangelho

Mas também é necessário esse desprendimento para entrar no reino dos céus: «Pouco antes da sua paixão, deu-lhes o exemplo da pobre viúva de Jerusalém que, da sua penúria, deu tudo o que tinha para viver (cf. Ev). O preceito do desapego das riquezas é obrigatório para entrar no reino dos céus» (CIC, 2544)

3ª feira,27-XI: Vitória do reino de Cristo.

Dan 2, 31-45 / Lc 21, 5-11

Jesus respondeu-lhes: Dias virão em que, de tudo o que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra, que não venha a ser derrubada.

Jesus profetiza a destruição do Templo de Jerusalém, orgulho dos judeus (cf. Ev). O mesmo viria a acontecer ao extenso reino de Nabucodonossor, simbolizado na estátua, que se desfez (cf. Leit). Finalmente o «Deus do céu fará surgir um reino que nunca será destruído» (Ev).

O reino de Cristo ainda não está acabado. «É ainda atacado pelos poderes do mal, embora estes já tenham sido radicalmente vencidos pela Páscoa de Cristo… Por estes motivos, os cristãos oram, sobretudo na Eucaristia, para que se apresse o regresso de Cristo, dizendo-lhe: Vinde Senhor Jesus» (CIC, 671).

4ª feira, 28-XI: O juízo particular e o peso do amor.

Dan 5, 1-6. 13-14. 16-17. 23-28 / Lc 21, 12-19

‘Contou’ Deus o tempo do teu reinado e pôs-lhe termo; ‘pesado’ foste na balança e achado sem peso.

Antes da segunda vinda de Cristo, a Igreja sofrerá grandes tribulações, que abalarão a fé de muitos crentes (cf. Ev).

Depois desta peregrinação na terra, seremos julgados por Deus, que verificará o peso das nossas vidas (cf. Leit), que será dado pelo amor de Deus com que vivemos as nossas acções de cada dia: «Ao morrer, cada homem recebe na sua alma imortal a retribuição eterna, num juízo particular, que põe a sua vida em referência a Cristo… ‘Ao entardecer desta vida, examinar-te-ão no amor’ (S. João da Cruz)» (CIC, 1022).

5ª feira, 29-XI: O juízo final e a conversão.

Dan 6, 11-28 / Lc 21, 20-28

Nessa altura verão o Filho do homem vir numa nuvem, com grande poder e glória.

Ao dar-se a vinda gloriosa de Cristo, terá lugar o Juízo final: «A mensagem do juízo final é um apelo à conversão, enquanto Deus dá ainda aos homens o tempo favorável, o tempo de salvação» (CIC, 1041).

O rei Dário converteu-se ao Deus de Daniel, depois de ver como Ele tinha salvo Daniel, e proclamou a todos os seus súbditos que Ele é o «Deus vivo. É Ele quem salva e liberta» (Leit). A verdadeira conversão manifesta-se na conduta: melhorar o trabalho, a vida familiar, orientar o dia de modo a agradar a Deus, dar um bom testemunho da presença de Deus para atrair os outros à fé.

6ª feira, 30-XI: S. André: Vocação e missão.

Rom 10, 9-18 / Mt 4, 18-22

Quando viu dois irmãos, Simão, que é chamado Pedro, e seu irmão André… Eles deixaram logo as redes e seguiram-no.

S. André foi pois dos primeiros a ouvir o chamamento do Senhor, e a segui-lo. (cf.Ev). Todos recebemos a vocação cristã que, ao longo da vida, se vai concretizando em novos apelos do Senhor: para melhorar a nossa vida espiritual, a vida familiar, o trabalho, a caridade para com o próximo. É preciso levar à prática estes apelos do Senhor.

Segundo uma antiga tradição, ele pregou o Evangelho na Grécia e morreu na Acaia, crucificado numa cruz em forma de X. Depois da vocação, vem o cumprimento da missão: «A voz deles propagou-se por toda a terra, e as suas palavras, até aos confins do mundo» (Leit).

Sábado, 1-XII: Vigilância e oração.

Dan 7, 15-27 / Lc 21, 34-36

O seu Reino será um reino eterno, e todos os potentados o hão-de servir e lhe hão-de obedecer.

Este Reino eterno, da profecia de Daniel (Ev) está perto de nós: «Em Jesus, ‘o reino de Deus está perto’. Ele apela à conversão e à fé, mas também à vigilância. Na oração o discípulo vela, atento àquele que é e que vem, na memória da sua primeira vinda, na humildade da carne e na esperança da sua segunda vinda na glória. Em comunhão com o Mestre, a oração dos discípulos é um combate» (CIC, 2612).

O oposto da vigilância é o descuido, a falta de empenho aos combates diários. Com a oração, venceremos!

Homilia e Nota Exegética: Geraldo Morujão
Homilias Feriais: Nuno Romão

Sugestão Musical: Duarte Nuno Rocha

Fonte: Celebração Litúrgica

XXXII DOMINGO DO TEMPO COMUM (Ano C)


Leitura do Segundo Livro de Macabeus (2 Mac 7,1-2.9-14)

Naqueles dias, foram presos sete irmãos, juntamente com a mãe, e o rei da Síria quis obrigá-los, à força de golpes de azorrague e de nervos de boi, a comer carne de porco proibida pela Lei judaica. Um deles tomou a palavra em nome de todos e falou assim ao rei: «Que pretendes perguntar e saber de nós? Estamos prontos para morrer, antes que violar a lei de nossos pais». Prestes a soltar o último suspiro, o segundo irmão disse: «Tu, malvado, pretendes arrancar-nos a vida presente, mas o Rei do universo ressuscitar-nos-á para a vida eterna, se morrermos fiéis às suas leis». Depois deste começaram a torturar o terceiro. Intimado a pôr fora a língua, apresentou-a sem demora e estendeu as mãos resolutamente, dizendo com nobre coragem: «Do Céu recebi estes membros e é por causa das suas leis que os desprezo, pois do Céu espero recebê-los de novo». O próprio rei e quantos o acompanhavam estavam admirados com a força de ânimo do jovem, que não fazia nenhum caso das torturas. Depois de executado este último, sujeitaram o quarto ao mesmo suplício. Quando estava para morrer, falou assim: «Vale a pena morrermos às mãos dos homens, quando temos a esperança em Deus de que Ele nos ressuscitará; mas tu, ó rei, não ressuscitarás para a vida».


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 16 (17)

Refrão: Senhor, ficarei saciado, quando surgir a vossa glória.

Ouvi, Senhor, uma causa justa,
atendei a minha súplica.
Escutai a minha oração,
feita com sinceridade.

Firmai os meus passos nas vossas veredas,
para que não vacilem os meus pés.
Eu Vos invoco, ó Deus, respondei-me,
ouvi e escutai as minhas palavras.

Protegei-me à sombra das vossas asas,
longe dos ímpios que me fazem violência.
Senhor, mereça eu contemplar a vossa face
e ao despertar saciar-me com a vossa imagem.

Leitura da Segunda Epístola do apóstolo São Paulo aos Tessalonicenses (2 Tes 2,16-3,5)

Irmãos: Jesus Cristo, nosso Senhor, e Deus, nosso Pai, que nos amou e nos deu, pela sua graça, eterna consolação e feliz esperança, confortem os vossos corações e os tornem firmes em toda a espécie de boas obras e palavras. Entretanto, irmãos, orai por nós, para que a palavra do Senhor se propague rapidamente e seja glorificada, como acontece no meio de vós. Orai também, para que sejamos livres dos homens perversos e maus, pois nem todos têm fé. Mas o Senhor é fiel: Ele vos dará firmeza e vos guardará do Maligno. Quanto a vós, confiamos inteiramente no Senhor que cumpris e cumprireis o que vos mandamos. O Senhor dirija os vossos corações, para que amem a Deus e aguardem a Cristo com perseverança.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 20,27-38)

Naquele tempo, aproximaram-se de Jesus alguns saduceus – que negam a ressurreição – e fizeram-Lhe a seguinte pergunta: «Mestre, Moisés deixou-nos escrito: ‘Se morrer a alguém um irmão, que deixe mulher, mas sem filhos, esse homem deve casar com a viúva, para dar descendência a seu irmão’. Ora havia sete irmãos. O primeiro casou-se e morreu sem filhos. O segundo e depois o terceiro desposaram a viúva; e o mesmo sucedeu aos sete, que morreram e não deixaram filhos. Por fim, morreu também a mulher. De qual destes será ela esposa na ressurreição, uma vez que os sete a tiveram por mulher?» Disse-lhes Jesus: «Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento. Mas aqueles que forem dignos de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos, nem se casam nem se dão em casamento. Na verdade, já nem podem morrer, pois são como os Anjos, e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus. E que os mortos ressuscitam, até Moisés o deu a entender no episódio da sarça ardente, quando chama ao Senhor ‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’. Não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos».


VIVOS!
Dizer abertamente «acredito na ressurreição dos mortos» é uma tarefa delicada. Por um lado, esta afirmação é um elemento irrenunciável da nossa fé. Por outro, a este credo são associados uma série de preconceitos que parecem minar a credibilidade da doutrina cristã. Há quem veja na esperança da ressurreição apenas um “ópio do povo”, que procura adormecer a vontade de lutar por um mundo mais justo. Outros vêem na ressurreição uma forma de evasão, face aos problemas que a vida apresenta.

Estes preconceitos estão longe de ser “modernos”, pois já no tempo de Jesus, a escola dos saduceus (uma das várias seitas judaicas) afirmava que a ressurreição era apenas uma ilusão onde o homem projectava os seus desejos de imortalidade. Quando ouviram Jesus falar de ressurreição, os saduceus não desperdiçaram a ocasião e tentaram ridicularizar a Sua fé, submetendo-Lhe um caso limite: se uma mulher casa, sucessivamente, com sete irmãos, cumprindo a lei do levirato*, de quem será esposa na ressurreição?

A resposta de Cristo revoluciona o antigo conceito de ressurreição e diz-nos que não se trata de uma simples continuação da vida que vivemos neste mundo, mas uma vida nova e distinta, uma vida de plenitude. E uma vida que começa já!

Qual ópio do povo, qual carapuça! Para nós cristãos, a certeza da ressurreição não é apenas uma realidade que esperamos. É também o ideal no horizonte que nos apaixona e que influencia, desde já, a nossa existência terrena e que transforma as nossas opções, os nossos valores e as nossas atitudes. É precisamente a beleza da vida eterna prometida que nos dá a coragem de doar as nossas vidas e de enfrentar as forças de pecado que dominam o mundo, de forma a que o novo céu e a nova terra que nos esperam (e que entrevemos no horizonte) comecem a desenhar-se desde já.


* Levirato: tradição judaica, segundo a qual, o irmão de um defunto que morre sem deixar filhos, deve casar com a viúva, a fim de dar descendência ao falecido e impedir que os bens da família terminem em mãos estranhas.

Fonte: <http://padrecarloscaetano.blogspot.com/2010/11/xxxii-domingo-do-tempo-comum-ano-c.html>

XXXIII Domingo do Tempo Comum (Ano C)

Roteiro Homilético – XXXIII Domingo do Tempo Comum (Ano C)

TEMA

A liturgia deste domingo reflete sobre o sentido da história da salvação e diz-nos que a meta final para onde Deus nos conduz é o novo céu e a nova terra da felicidade plena, da vida definitiva. Este quadro (que deve ser o horizonte que os nossos olhos contemplam em cada dia da nossa caminhada neste mundo) faz nascer em nós a esperança; e da esperança brota a coragem para enfrentar a adversidade e para lutar pelo advento do Reino.

Na primeira leitura, um “mensageiro de Deus” anuncia a uma comunidade desanimada, céptica e apática que Jahwéh não abandonou o seu Povo. Deus vai intervir no mundo e vai fazer com que nasça esse “sol da justiça” que traz a salvação.

O Evangelho oferece-nos uma reflexão sobre o percurso que a Igreja é chamada a percorrer, até à segunda vinda de Jesus. A missão dos discípulos em caminhada na história é comprometer-se na transformação do mundo, de forma a que a velha realidade desapareça e nasça o Reino. Esse “caminho” será percorrido no meio de dificuldades e perseguições; mas os discípulos terão sempre a ajuda e a força de Deus.

A segunda leitura reforça a ideia de que, enquanto esperamos a vida definitiva, não temos o direito de nos instalarmos na preguiça e no comodismo, alheando-nos das grandes questões do mundo e evitando dar o nosso contributo na construção do Reino.

LEITURA I – Mal 4,1-2

Há-de vir o dia do Senhor, ardente como uma fornalha; e serão como a palha todos os soberbos e malfeitores. O dia que há-de vir os abrasará – diz o Senhor do Universo – e não lhes deixará raiz nem ramos. Mas para vós que temeis o meu nome, nascerá o sol de justiça, trazendo nos seus raios a salvação.

AMBIENTE

O nome “Malaquias” não é um nome próprio. Significa “o meu mensageiro”; é o título tomado por um profeta anónimo, sobre o qual praticamente nada sabemos e que se apresenta como “mensageiro” de Deus.

É, de qualquer forma, um profeta do período pós-exílico. Na sua época, o Templo já havia sido reconstruído (cf. Mal 1,10) e o culto já funcionava – ainda que mal (cf. Mal 1,7-9.12-13)… No entanto, o entusiasmo pela reconstrução estava apagado; desanimado ao ver que as antigas promessas de Deus não se tinham cumprido, o Povo havia caído na apatia religiosa e na absoluta falta de confiança em Deus… Duvidava do amor de Deus, da sua justiça, do seu interesse por Judá. Todo este cepticismo tinha repercussões no culto (cada vez mais desleixado) e na ética (multiplicavam-se as falhas, as injustiças, as arbitrariedades). Este quadro, posterior à restauração do Templo, situa-nos na primeira metade do séc. V a.C. (entre 480 e 450 a.C.).

Este “mensageiro de Deus” reage vigorosamente contra a situação em que o Povo de Judá está a cair. Coloca cada um diante das suas responsabilidades para com Jahwéh e para com o próximo, exige a conversão do Povo e a reforma da vida cultual. A sua lógica é a lógica deuteronomista: se o Povo se obstinar em percorrer caminhos de infidelidade à Aliança, voltará a conhecer a morte e a infelicidade; mas se o Povo se voltar para Deus e cumprir os mandamentos, voltará a gozar da vida e da felicidade que Deus oferece àqueles que seguem os seus caminhos.

Uma nota de carácter prático: o texto que nos é hoje proposto aparece, nas edições mais recentes da Bíblia, numerado não como 4,1-2, mas como 3,19-20.

MENSAGEM

O nosso texto refere-se ao “dia do julgamento” – isto é, ao dia em que Jahwéh vai intervir na história, no sentido de destruir o mal, a injustiça, a opressão, o pecado e fazer triunfar o bem, a justiça, a verdade. Diante do fogo do Senhor que purifica e renova, “serão como palha os soberbos e malfeitores” e o Senhor “não lhes deixará nem raiz nem ramos”; em contrapartida, para os que se mantêm nos caminhos da aliança e dos mandamentos, “nascerá o sol da justiça, trazendo nos seus raios a salvação”.

De que é que o “mensageiro” de Deus está a falar? Está a falar do “fim do mundo”? Não. Está a referir-se ao “dia do Senhor” – um conceito que aparece com frequência na literatura profética (cf. Am 5,18; Sof 1,14-18; Jl 2,11) para designar o momento da intervenção de Deus na história, o momento em que Jahwéh vai oferecer ao seu Povo a salvação definitiva… O profeta está – utilizando uma linguagem e imagens tipicamente proféticas – a pedir aos seus concidadãos que não desanimem nem desesperem, pois Deus vai intervir no mundo para fazer aparecer um mundo novo.

Trata-se, fundamentalmente, de um apelo à esperança: “apesar da situação caótica em que estamos, não desanimemos, mantenhamo-nos fiéis a Jahwéh, pois Deus vai fazer aparecer um mundo novo, de vida e de felicidade para todos”. As imagens do “fogo” devorador e da “palha” que é integralmente queimada são imagens bíblicas muito comuns na época (sobretudo entre os autores apocalípticos) para significar a intervenção de Deus, a actuação libertadora de Deus no mundo. Como imagens que são, não devem ser tomadas à letra… Para os cristãos, esta profecia compreende-se à luz da intervenção libertadora de Jesus: Ele é o “sol de justiça” que brilha no mundo e que insere os homens na dinâmica de um mundo novo – a dinâmica do “Reino”.

ATUALIZAÇÃO

A reflexão pode partir dos seguintes dados:

* Muitas vezes temos a sensação de que o nosso mundo caminha para o abismo e que nada o pode deter. Olhamos para o mapa dos conflitos bélicos e vemos pintados de sangue o presente e o futuro de tantos povos; olhamos para a natureza e vemo-la devorada pelos interesses das multinacionais da indústria; olhamos para as pessoas e vemo-las fechadas no seu cantinho, desinteressadas das grandes questões (fala-se, até, de uma “geração rasca” e de “crise de valores” para descrever o quadro de desinteresse, de descomprometimento, de ausência de grandes ideais)… A questão é: a esperança ainda faz sentido? Este mundo tem saída? Um profeta anónimo de há 2450 anos dá voz à esperança e garante-nos: Deus não nos abandonou; Ele vai intervir – Ele está sempre a intervir – no mundo…

* É preciso ter consciência de que a intervenção libertadora de Deus não deve ser projectada apenas para o “último dia” do mundo… Ela acontece a cada instante; e nós devemos estar numa espera vigilante e activa, a fim de sabermos reconhecer e acolher de braços abertos a intervenção salvadora e libertadora de Deus na nossa história e na nossa vida.

* Muitas vezes esta profecia e outras semelhantes são usadas pelas seitas (e, às vezes, até por certos grupos que se dizem cristãos, mas que seguem o mesmo percurso das seitas) para incutir medo: “está a chegar o fim do mundo e quem, até lá, não ganhar juízo, irá sofrer castigos pavorosos e ser atirado para o inferno”… Interpretar estes textos desta forma é distorcer gravemente a Palavra de Deus: eles não pretendem amedrontar-nos, mas fortalecer a nossa esperança no Deus libertador e dar-nos a coragem necessária para enfrentar os dramas da vida e da história.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 97 (98)

Refrão 1: O Senhor virá governar com justiça.

Refrão 2: O Senhor julgará o mundo com justiça.


Cantai ao Senhor ao som da cítara,
ao som da cítara e da lira;
ao som da tuba e da trombeta,
aclamai o Senhor, nosso Rei.


Ressoe o mar e tudo o que ele encerra,
a terra inteira e tudo o que nela habita;
aplaudam os rios
e as montanhas exultem de alegria.


Diante do Senhor que vem,
que vem para julgar a terra;
julgará o mundo com justiça
e os povos com equidade.

LEITURA II – 2Tes 3, 7-12

Irmãos: Vós sabeis como deveis imitar-nos, pois não vivemos entre vós desordenadamente, nem comemos de graça o pão de ninguém. Trabalhámos dia e noite, com esforço e fadiga, para não sermos pesados a nenhum de vós. Não é que não tivéssemos esse direito, mas quisemos ser para vós exemplo a imitar. Quando ainda estávamos convosco, já vos dávamos esta ordem: quem não quer trabalhar, também não deve comer. Ouvimos dizer que alguns de vós vivem na ociosidade, sem fazerem trabalho algum, mas ocupados em futilidades. A esses ordenamos e recomendamos, em nome do Senhor Jesus Cristo, que trabalhem tranquilamente, para ganharem o pão que comem.

AMBIENTE

Continuamos a ler a Segunda Carta aos Tessalonicenses. O seu autor dirige-se – como já vimos nos domingos anteriores – a uma comunidade que vive com entusiasmo a sua fé e que dá um testemunho vigoroso e comprometido da sua adesão ao Evangelho de Jesus, mesmo no meio das dificuldades e das perseguições… No entanto, a partida precipitada de Paulo (que teve de deixar Tessalónica à pressa para fugir a uma cilada armada contra ele pelos judeus da cidade) não permitiu que a catequese ficasse completa e que certas questões de fé fossem suficientemente desenvolvidas e amadurecidas. Uma dessas questões – que inquietava grandemente os tessalonicenses – era a da segunda vinda do Senhor.

Nesta carta percebe-se, claramente, que alguns cristãos de Tessalónica, persuadidos de que a vinda do Senhor estava muito próxima, viviam “nas nuvens”, negligenciando os seus deveres de todos os dias (2 Tes 2,1-2). Agora, a única coisa que faz sentido – dizem eles – é ter os braços, os olhos e o coração voltados para o céu, esperando a vinda gloriosa do Senhor. Esta atitude compreende-se ainda melhor à luz da antropologia grega, segundo a qual o homem deve viver voltado para o mundo ideal e espiritual, fugindo o mais possível do terreno e material; o trabalho manual – de acordo com esta perspectiva – é degradante, sem valor algum para a construção da pessoa e deve ser evitado a todo o custo… É este o enquadramento da nossa leitura.

MENSAGEM

O autor da Segunda Carta aos Tessalonicenses rejeita totalmente esta concepção e a atitude daqueles que – com a desculpa da iminência da vinda do Senhor – vivem ocupados com futilidades e não fazem nada de útil. Nas entrelinhas percebemos a perspectiva de inspiração semita, segundo a qual a condição corporal do homem não é um castigo; portanto, o trabalho manual não envelhece, mas dignifica.

De resto, o autor da carta dá como exemplo o próprio Paulo: ele nunca escolheu a ociosidade, nem viveu à custa de quem quer que fosse (“trabalhamos noite e dia com esforço e fadiga, para não sermos pesados a nenhum de vós” – vers. 8); até mesmo durante as suas viagens missionárias, Paulo nunca aceitou qualquer pagamento – o que mostra que o seu amor pelos cristãos e pelas comunidades é sincero e nunca teve qualquer interesse material.

O tom desta passagem é exigente, solene, autoritário, pois está em jogo algo de fundamental – a harmonia da comunidade. É que, se numa comunidade houver parasitas que vivem à custa dos demais, rapidamente a comunidade chegará a uma situação insustentável: o equilíbrio romper-se-á, surgirão os conflitos, as acusações, as divisões e a fraternidade será uma miragem. Viver em comunidade exige a repartição equitativa dos recursos a que a comunidade tem acesso; mas exige, também, a responsabilização de todos os membros, a fim de que todos ponham ao serviço dos irmãos os próprios dons e contribuam para a construção, para o equilíbrio e para a harmonia comunitárias.

ATUALIZAÇÃO

Considerar os seguintes pontos:

* Ao contrário do que dizem alguns “iluminados”, o cristianismo não fomenta a evasão deste mundo, nem pretende fazer alienados que vivam de olhos postos no céu e passem ao lado das lutas dos outros homens… Pelo contrário, o cristianismo vivido com verdade, seriedade e coerência potencia um empenhamento sincero na construção de um mundo mais justo e mais fraterno, todos os dias, vinte e quatro horas por dia. O “Reino de Deus” é uma realidade que atingirá o ponto culminante na vida futura; mas começa a construir-se aqui e agora e exige o esforço e o empenho de todos. A minha atitude é a de quem se comprometeu com o “Reino” e procura construí-lo em cada instante da sua existência?

* Nas comunidades cristãs encontramos, com frequência, pessoas que falam muito e mandam muito, mas fazem muito pouco e, muitas vezes, ainda se aproveitam dos trabalhos dos outros para se enfeitar de louros… Também encontramos aqueles que são apenas “consumidores passivos” daquilo que a comunidade constrói, mas não se esforçam minimamente por colaborar. Qual é a minha atitude face a isto? Dou o meu contributo na construção da comunidade? Ponho a render os meus dons?

* A Palavra interpela também as comunidades religiosas… A vida religiosa pode ser apenas uma vida cómoda (com cama, mesa e roupa lavada garantidas) para pessoas que gostam de viver instaladas, arrumadas, sem ambições… É preciso cuidado para não nos tornarmos parasitas da sociedade (e, muitas vezes, de pessoas que vivem muito pior do que nós e que ainda partilham connosco o pouco que têm): a nossa missão é tornarmo-nos “sinais” que anunciam o mundo novo e trabalhar para que esse mundo novo seja uma realidade.

ALELUIA - Lc 21,28

Aleluia. Aleluia.

Erguei-vos e levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima.

EVANGELHO – Lc 21,5-19

Naquele tempo, comentavam alguns que o templo estava ornado com belas pedras e piedosas ofertas. Jesus disse-lhes: «Dias virão em que, de tudo o que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído». Eles perguntaram-lhe: «Mestre, quando sucederá isso? Que sinal haverá de que está para acontecer?» Jesus respondeu: «Tende cuidado; não vos deixeis enganar, pois muitos virão em meu nome e dirão: “sou eu”; e ainda: “O tempo está próximo”. Não os sigais. Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas, não vos alarmeis: é preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim». Disse-lhes ainda: «Há-de erguer-se povo e reino contra reino. Haverá grandes terramotos e, em diversos lugares, fomes e epidemias. Haverá fenómenos espantosos e grandes sinais no céu. Mas antes de tudo isto, deitar-vos-ão as mãos e hão-de perseguir-vos, entregando-vos às sinagogas e às prisões, conduzindo-vos à presença de reis e governadores, por causa do meu nome. Assim tereis ocasião de dar testemunho. Tende presente em vossos corações que não deveis preparar a vossa defesa. Eu vos darei língua e sabedoria a que nenhum dos vossos adversários poderá resistir ou contradizer. Sereis entregues até pelos vossos pais, irmãos, parentes e amigos. Causarão a morte a alguns de vós e todos vos odiarão por causa do meu nome; mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá. Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas.

AMBIENTE

Estamos em Jerusalém, nos últimos dias antes da paixão. Como acontece com os outros sinópticos (cf. Mt 24-25; Mc 13), também Lucas conclui a pregação de Jesus com um discurso escatológico onde se misturam referências à queda de Jerusalém e ao “fim dos tempos”. Na versão lucana, Jesus está nos átrios do Templo com os discípulos (na versão de Mateus e de Marcos, Jesus está no monte das Oliveiras); é a contemplação das belas pedras do Templo, que leva Jesus a esta catequese escatológica.

MENSAGEM

O discurso escatológico que Lucas nos traz é uma apresentação teológica onde aparecem, em pano de fundo, três momentos da história da salvação: a destruição de Jerusalém, o tempo da missão da Igreja e a vinda do Filho do Homem (que porá fim ao “tempo da Igreja” e trará a plenitude do “Reino de Deus”).

O texto começa com o anúncio da destruição de Jerusalém (vers. 5-6). Na perspectiva profética, Jerusalém é o lugar onde deve irromper a salvação de Deus (cf. Is 4,5-6; 54,12-17; 62; 65,18-25) e para onde convergirão todos os povos empenhados em ter acesso a essa salvação (cf. Is 2,2-3; 56,6-8; 60,3; 66,20-23). No entanto, Jerusalém recusou a oferta de salvação que Jesus veio trazer. A destruição da cidade e do Templo significa que Jerusalém deixou de ser o lugar exclusivo e definitivo da salvação. A Boa Nova de Jesus vai, portanto, deixar Jerusalém e partir ao encontro de todos os povos. Começa, assim, uma outra fase da história da salvação: começa o “tempo da Igreja” – o tempo em que a comunidade dos discípulos, caminhando na história, testemunhará a salvação a todos os povos da terra.

Vem, depois, uma reflexão sobre o “tempo da Igreja”, que culminará com a segunda vinda de Jesus (vers. 7-19). Como será esse tempo? Como vivê-lo? Em primeiro lugar, Lucas sugere que, após a destruição de Jerusalém, surgirão falsos messias e visionários que anunciarão o fim (o que é, aliás, vulgar em épocas de crise e de catástrofe). Lucas avisa: “não sigais atrás deles” (vers. 8); e esclarece: “não será logo o fim” (vers. 9). A destruição de Jerusalém no ano 70 pelas tropas de Tito deve ter parecido aos cristãos o prenúncio da segunda vinda de Jesus e alguns pregadores populares deviam alimentar essas ilusões… Mas Lucas (que escreve durante os anos 80) está apostado em eliminar essa febre escatológica que crescia em certos sectores cristãos: em lugar de viverem obcecados com o fim, os cristãos devem preocupar-se em viver uma vida cristã cada vez mais comprometida com a transformação “deste” mundo.

Em segundo lugar, Lucas diz aos cristãos o que acontecerá nesse “tempo de espera”: paulatinamente, irá surgindo um mundo novo. Para dizer isto, Lucas recorre a imagens apocalípticas (“há-de erguer-se povo contra povo e reino contra reino” – vers. 10, cf. Is 19,2; 2 Cr 15,6; “haverá grandes terramotos e, em diversos lugares, fome e epidemias; haverá fenómenos espantosos e grandes sinais no céu” – vers. 11), muito usadas pelos pregadores populares da época para falar da queda do mundo velho – o mundo do pecado, do egoísmo, da exploração – e do surgimento de um mundo novo… A questão é, portanto, esta: no tempo que medeia entre a queda de Jerusalém e a segunda vinda de Jesus, o “Reino de Deus” ir-se-á manifestando; o mundo velho desaparecerá e nascerá um mundo novo (recordemos que os discípulos não devem esperá-lo de braços cruzados, à espera que Deus faça tudo, mas devem empenhar-se na sua construção). É claro que a libertação plena e definitiva só acontecerá com a segunda vinda de Jesus.

Em terceiro lugar, Lucas põe os cristãos de sobreaviso para as dificuldades e perseguições que marcarão a caminhada histórica da Igreja pelo tempo fora, até à segunda vinda de Jesus. Lucas lembra-lhes, contudo, que não estarão sós, pois Deus estará sempre presente; será com a força de Deus que eles enfrentarão os adversários e que resistirão à tortura, à prisão e à morte; será com a ajuda de Deus que eles poderão, até, resistir à dor de ser atraiçoados pelos próprios familiares e amigos… Quando Lucas escreve este texto, tem bem presente a experiência de uma Igreja que caminha e luta na história para tornar realidade o “Reino” e que, nessa luta, conhece os sofrimentos, as dificuldades, a perseguição e o martírio; as palavras de alento que ele aqui deixa – sobretudo a certeza de que Deus está presente e não abandona os seus filhos – devem ter constituído uma ajuda inestimável para esses cristãos a quem o Evangelho se destinava.

O discurso escatológico define, portanto, a missão da Igreja na história (até à segunda vinda de Jesus): dar testemunho da Boa Nova e construir o Reino. Os discípulos nada deverão temer: haverá dificuldades, mas eles terão sempre a ajuda e a força de Deus.

ATUALIZAÇÃO

Considerar os seguintes desenvolvimentos:

* O que parece, aqui, fundamental, não é o discurso sobre o “fim do mundo”, mas sim o discurso sobre o percurso que devemos percorrer, até chegarmos à plenitude da história humana… Trata-se de uma caminhada que não nos leva ao aniquilamento, à destruição absoluta, ao fracasso total, mas à vida nova, à vida plena; por isso, deve ser uma caminhada que devemos percorrer de cabeça levantada, cheios de alegria e de esperança.

* É, sem dúvida, uma caminhada eivada de dificuldades, de lutas, onde o bem e o mal se confrontarão sem cessar; mas é um percurso onde o mundo novo irá surgindo – embora com avanços e recuos – e onde a semente do “Reino” irá germinando. Aos crentes pede-se que reconheçam os “sinais” do “Reino”, que se alegrem porque o “Reino” está presente e que se esforcem, todos os dias, por tornar possível essa nova realidade. A nossa vida não pode ser um ficar de braços cruzados a olhar para o céu, mas um compromisso sério e empenhado, de forma a que floresça o mundo novo da justiça, do amor e da paz. Quais são os sinais de esperança que eu contemplo e que me fazem acreditar na chegada iminente do “Reino”? O que posso fazer, no dia a dia, para apressar a chegada do “Reino”?

* Nessa caminhada, os crentes sabem que não estão sós, mas que Deus vai com eles… É essa presença constante e amorosa de Deus que lhes permitirá enfrentar as forças da morte, apostadas em evitar que o mundo novo apareça; é essa força de Deus que permitirá aos discípulos de Jesus vencer o desânimo, a adversidade, o medo.

* Alguns sinais de desagregação do mundo velho, que todos os dias contemplamos, não devem assustar-nos: eles são, apenas, sinais de que estamos a nascer para algo novo e melhor. O perder certas referências pode assustar-nos e baralhar os nossos esquemas e certezas; mas todos sabemos que é impossível construir algo mais bonito, sem a destruição do que é velho e caduco.

ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 33º DOMINGO DO TEMPO COMUM

(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)


1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.

Ao longo dos dias da semana anterior ao 33º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. PALAVRA CELEBRADA NA EUCARISTIA.

A Palavra de Deus não se limita ao tempo da proclamação e da escuta da Palavra. Na preparação da celebração, procurar que algumas expressões da liturgia da Palavra estejam presentes no momento penitencial, nalguma intenção da oração dos fiéis, num momento de acção de graças…

3. BILHETE DE EVANGELHO.

Os homens têm sempre necessidade de se apoiar naquilo que é sólido. Compreendese o olhar admirado dos discípulos contemplando o templo de Jerusalém. É então que Jesus escolhe o momento para lhes anunciar que tudo o que é terrestre é efémero e que virá um dia em que tudo de desmoronará para deixar chegar o Reino, que será eterno e nunca conhecerá a destruição. Mas, ao mesmo tempo, Jesus assegura-lhes: virá o momento em que eles deverão testemunhar no meio das perseguições, por causa do seu Nome. E para este testemunho ser-lhes-á dada a linguagem e a sabedoria à qual todos os adversários não poderão opor resistências nem contradições. E, depois, Aquele que está Vivo e que aparecerá no fim dos tempos como o grande vencedor sobre as forças do mal manterá vivos para sempre aqueles que souberem perseverar. Tal é a promessa de Jesus aos seus discípulos; e Jesus mantém sempre as suas promessas.

4. À ESCUTA DA PALAVRA.

O fim do mundo! Não podemos descobrir no nosso tempo todos estes sinais do fim do mundo tal como Jesus os dá? “Há-de erguer-se povo e reino contra reino. Haverá grandes terramotos e, em diversos lugares, fomes e epidemias”. Diríamos hoje epidemias como a sida, a gripe das aves… Muitas coisas podem servir para manipular o medo e a angústia de muitas pessoas. Para mais, há toda uma panóplia de seitas.

Mesmo no cristianismo vemos surgir regularmente aparições de várias espécies. O “regresso do religioso” toma muitas vezes a forma de uma procura de sinais milagrosos, de predições sobre tudo e sobre nada. Há mais magos, adivinhos, cartomantes, astrólogos e gurus de toda a espécie, do que padres. Quem nunca leu um horóscopo? E suma, o esoterismo está na moda. E, para tranquilizar a consciência, até nos apoiamos nas palavras de Jesus. Mas Jesus adverte-nos: “Tende cuidado; não vos deixeis enganar, pois muitos virão em meu nome e dirão: ‘sou eu’; e ainda: ‘O tempo está próximo’. Não os sigais”. Em São Mateus, precisa mesmo: “surgirão falsos Cristos e falsos profetas, que produzirão grandes sinais e prodígios, a ponto de abusar, mesmo os eleitos”. São Paulo diz mesmo que Satanás se disfarça em anjo de luz. Então, nós também, hoje, somos convidados a resistir a estas tentações de esoterismo. O nosso futuro não está inscrito nem nos astros, nem nas cartas, nem na marca do café, nem nas linhas da mão. O nosso futuro está em Jesus.

Queremos sinais? Só temos um: a morte e a ressurreição de Jesus, que nos são dadas em cada Eucaristia e que são a prova última e definitiva do amor de Deus por nós. É verdade que este sinal só se pode reconhecer na fé e o próprio Jesus se questionou: “O Filho do Homem, quando vier, encontrará a fé sobre a terra?” Desde então, a nossa primeira preocupação deve ser vivificar a nossa fé, reencontrar uma intimidade com Jesus: “Jesus, eu creio, mas aumenta a minha fé!” Então, não teremos mais medo.

5. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a oração eucarística para a reconciliação nº 1, que proclama o desejo de Deus salvar todos os homens.
6. PALAVRA PARA O CAMINHO DA VIDA…

Levar a Palavra de Deus como luz para mais uma semana de trabalho, de estudo… Ao longo dos dias da semana que se segue, procurar rezar e meditar algumas frases da Palavra de Deus: «há-de vir o dia do Senhor… Nascerá o sol de justiça… trazendo a salvação…”; “trabalhem tranquilamente, para ganharem o pão que comem…”; “tereis ocasião de dar testemunho…”; “pela vossa perseverança salvareis as vossas almas…”. Procurar transformar as palavras de Deus em atitudes e em gestos de verdadeiro encontro com Deus e com os próximos que formos encontrando nos caminhos percorridos da vida…

7. PALAVRA VIVIDA AO LONGO DANO LITÚRGICO.

Termina mais um ano do ciclo litúrgico, com a Solenidade de Cristo Rei no próximo domingo. Durante a semana podemos meditar sobre o crescimento da nossa fé a partir do encontro dominical e quotidiano com a Palavra de Deus na Eucaristia.

Transformou-nos? Fez-nos crescer? Ou ficámos na mesma, passivos e estagnados?

Texto adaptado de: Grupo Dinamizador
Pe. Joaquim Garrido – Pe. Manuel Barbosa – Pe. Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (dehonianos)
Fonte: <http://www.presbiteros.com.br/site/roteiro-homiletico-%E2%80%93-xxxiii-domingo-do-tempo-comum-ano-c/>